quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

"Mas sempre, p'ra sempre, vou gostar de ti"

Ando há uns dias a ponderar se escrevo ou não escrevo sobre este assunto. Sei que há um milhar de pessoas que já escreveram sobre isto e, muito provavelmente, com mais insight que eu.

Sou fã incondicional dos Xutos e Pontapés há muitos anos. Muitos. Quase tantos quanto os que tenho de vida. Comprei alguns discos, mas não todos. Eu sou mais pelos concertos. As memórias têm em mim um fortíssimo impacto que é irrepetível – mesmo quando os discos são dos concertos. Os Xutos fizeram parte da minha vida de adolescente tanto quanto alguns dos meus amigos mais próximos. Os meus amigos sabem o quanto gosto de música, o quanto gosto de música portuguesa, o quanto gosto de Xutos. Paguei mais do que uma vez 50€ para ir ver os Xutos no RiR enquanto a maior parte dos meus amigos me gozava e dizia: “se só vais ver os Xutos, porque não vais aos concertos de graça, que eles fazem aos montes?” Porque não é igual.
Ver os Xutos no concerto dos 25 anos, no – formerly known as - Pavilhão Atlântico foi um dos prazeres máximos da minha juventude e será, até eu morrer, uma memória indescritível. Estive horas antes do concerto nas barreiras do palco, pura e simplesmente porque queria fazer parte da cena. TODA A CENA. O palco, num X genialmente concebido. O Zé Pedro estava – que sorte a minha – mesmo ali, do nosso lado. Não me esqueço. Nunca me esqueci. Dos seus olhares na nossa direcção, das palhetas a voarem das mãos dele para serem engolidas por um mar de pessoas à minha volta.
Tenho – confesso-me! – uma paixão doida pelo Zé Pedro, qual adolescente, desde que sou fã dos Xutos. Agora até pode parecer que só digo isto porque ele morreu. Mas não. A minha amiga Marta, que teve a sorte invejável de conhecer o Zé Pedro no RiR, pediu-lhe um autógrafo para mim. Eu, que nunca tive autógrafos de ninguém, tenho um do meu artista preferido numa banda. Os Xutos são história de Portugal, são história da música portuguesa – mas não só. São parte da vida de pelo menos três gerações que cresceram a ouvi-los, a admirá-los e a achar, tal como eu, que no caso deles, eles são uma espécie de nossos amigos.
Na faculdade tive o prazer de conhecer e me tornar grande amiga da Luísa. Ela conhece os Xutos. Todos. Incluindo o Zé Pedro. Há muitos anos. No dia 30, quando lhe mandei uma mensagem a transmitir a minha tristeza, a Luísa respondeu-me que eu tinha sido a primeira pessoa de que se lembrou quando soube da notícia. A minha amiga Diana também. Ambas sabem, como o resto do nosso gang, da minha paixão infantil pelo Zé Pedro.
O Zé Pedro morreu, depois de montes de problemas de saúde, de lutas incessantes contra os vícios – que venceu.
O Zé Pedro morreu no dia em que o meu filho mais velho fez 8 anos. É óbvio que o dia não mudou, nem eu mudei, nada mudou. Mas o Zé Pedro, a minha paixão de adolescente, morreu. E no dia seguinte quando acordei, chorei, só um bocadinho, só para mim. Pelos Xutos, porque perderam alguém tão infinitamente importante para eles, pelos meus amigos, como a Lu e o Sebastião, que estão tão proximos quanto se pode estar, por todos aqueles que como eu, viram e vêem nos Xutos uma banda com o verdadeiro sangue Português. O sangue que resistiu a todas as invasões estrangeiras, o sangue de mil mares navegados, o sangue da saudade. O sangue do Homem do Leme. O Sangue de quem não foi o único a olhar o céu, a navegar o mar, a saber ir e a saber voltar. De quem sabe como a droga impacta o crescimento e a visão da vida, de quem lutou para crescer num mundo cão que é o de se ser famoso, de ser escrutinado pelas redes sociais, pelas revistas pink e por tudo o resto. No fim, os Xutos progrediram, saíram do seu lugar de conforto e fizeram nascer uma banda que TODOS conhecem. Uma banda de quem toda a gente em Portugal conhece pelo menos uma música. Uma banda que é tão multi-facetada que canta com os Resistência, com o Jorge Palma, cujo vocalista canta a solo, cujos membros cantam em parte ou em conjunto com mais um sem número de artistas portugueses. Serei sempre fã incondicional de música - e dos Xutos. Sempre.
Vou ter sempre saudades do Zé Pedro. Mesmo sem o ter conhecido. Porque como os outros artistas respeitáveis, não teve vergonha de se assumir humano, defeituoso, falível. Assumiu os erros que fez, lutou contra as consequências desses erros. Pagou esses erros e não ficou a dever nada – talvez e apenas, mais música. O Rock ‘n Roll perdeu um ramo português. Incontornável.
Aos Xutos, se lhes pudesse dizer qualquer coisa, dizia que sinto profundamente a perda inegável deles. E que sinto, muito muito muito a tristeza deles.
Agora, que já não posso dizer nada ao Zé Pedro, gostava de ter tido coragem para no dia em que parou ao lado do meu carro na rua Braamcamp, em Lisboa, saltar do carro e dizer-lhe que era - e sou - a sua maior fã! Ao invés, fiquei louca, comecei, qual pita histérica, aos saltos no carro. Parva.
Aos Xutos e Pontapés, no geral e ao Zé Pedro, em particular, obrigada. Obrigada pela vossa dedicação. Pelo vosso amor à música. E por não terem acabado a banda. Obrigada.
Vivam os Xutos. Sempre.

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