terça-feira, 24 de abril de 2018

Não vou estar cá para sempre - nem eu nem a minha Mãe


Se soubessem quantas vezes penso em desligar tudo. Se soubessem quantas vezes acordo a meio da noite e me apetece pegar no carro e conduzir sem destino.
Quantas vezes vos imploro por silêncio para poder dar lugar ao meu barulho interior. Quantas vezes vos dou a mais para ficar com menos, mesmo quando me apetece ficar com mais. Quantas vezes me apetece deixar-vos nos vossos destinos e voltar para casa, só pelo silêncio. Quantas vezes o barulho é demais para depois o silêncio ser demais também.
Quantas vezes, numa mesa de jantar, repito as mesmas frases, umas atrás das outras, na tentativa de me fazer entender, para no dia seguinte recomeçar. Quantas vezes faço o que não me apetece para vos fazer felizes. Quantas vezes cedo para não me zangar. Quantas vezes me sinto sem apoio, sem nó, sem dó, sem norte. Quantas vezes começo isto, depois passo para aquilo, depois volto ao isto e quando acabo o aquilo, ficaram os outros pelo caminho que ainda faltou acabar ou até começar. Quantos dias passam até me lembrar que preciso de pôr creme nas mãos, ou de limar as unhas ou de ir cortar o cabelo. Quantas vezes ando com papos nos olhos, semanas a fio, até os mais honestos (ou antipáticos!) me dizerem – devias tapar essas olheiras. Quantas vezes me vejo acabada de acordar e só volto a ver-me – com olhos de ver – no retrovisor do carro antes de vir trabalhar. Quantas vezes me apetece mandar-vos para um sítio distante – ou mandar-me a mim e deixar-vos cá. Quantas vezes são as vezes que as Mães, mesmo mães – não aquelas só de título – se querem mandar para longe? Quantas vezes os 10 minutos que sobram no carro a caminho do trabalho são, na vida de uma Mãe, o único tempo que tem consigo e só para si? Quantas vezes me apetece levantar-me às 5 da manhã de sábado, só para poder sentar-me no pátio a tomar o pequeno-almoço e ler um livro sem cereais nem barrinhas e “não quero mais leite” e “podemos ver desenhos animados?”.
Provavelmente não acontecia nada se vocês soubessem. Porque as Mães (sentem todas a necessidade de provar aos outros que) são capazes de tudo, sozinhas. Nós contra o Mundo, nós contra tudo. Nós contra tudo muitas vezes resulta também em nós contra nós próprias, dado que a exigência da vida nem sempre permite espaço para nós. Quando mais de 80% do nosso dia somos a Mãe na voz deles, na das professoras, das educadoras, das senhoras e dos senhores das entradas das escolas, na dos médicos, nas vozes do trabalho (em que somos a Sra. Dra. ou um qualquer outro título,) ou temos um nickname, e sem saber como, a identidade Francisca, Maria, Joana ou Henriqueta, perde-se algures no tempo. Perde-se nas reuniões de pais, nas festas de anos, nas loucuras dos dias - que são já anos.
Não é culpa de ninguém em particular, mas de todos, no geral. Somos produtos da sociedade que nos torna unipessoais em sociedades familiares, de comunhão e partilha. Quantas vezes há muitas mais Mães, em situações em que o seu nome é a menor das suas preocupações. Quantas vezes o que interessam são eles, sempre eles e - SÓ - eles.
As Mães e os Pais precisam de mais espaço para existir e co-existir, sob pena de um dia não  conseguirem encontrar a sua própria identidade; aquela de antes dos filhos, de antes dos cabelos brancos, de antes das mãos secas, de antes da pele cansada, de antes dos papos debaixo dos olhos. Arranjemos tempo para que tudo seja possível, passo-a-passo, sem stresses nem exaustões de parte a parte. Façamos um verdadeiro esforço para que nós, Mães, forças da Natureza constante e inconstante, estejamos sempre no nosso melhor – para que o nosso melhor possa ser o melhor para os outros – Aqueles outros todos que, one way or another, precisam e dependem de nós, com ou sem papos nos olhos.
Fiquem pois a saber, que com ar olheirento, estoiradas, rotas de cansaço, sujas de bolachas secas semi-mastigadas no ombro esquerdo, com cabelos brancos e pele por maquilhar, as Mães serão sempre a força constante que vos leva. E quando chegar a Vossa vez, lembrem-se sempre do esforço que viram ser feito, para que vocês pudessem ter tudo (tudo o que era alcançável – e inalcançável). E pensem também no que viram e percebam o amor de uma Mãe – e os sacríficios que desse amor advêm. E agradeçam-lhes, porque a(s) Mãe(s) não está(ão) cá para sempre.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A arte de se ser intolerável


As coisas que dizes e fazes afectam a vida das outras pessoas. As palavras têm impacto na vida dos outros. As atitudes também. A força, ou falta dela, dos outros não deve NUNCA ser razão para te aproveitares e subires. 
Não passes por cima dos outros. Não sejas assim. As pessoas assim podem ter lugares importantes e até amigos mas não são felizes. Chutam antipatias e deseducações contra os outros, numa esperança de se sentirem melhor consigo próprios, de se sentirem fantásticos, mas no fundo, são apenas sanguessugas. 
Pond scum. Têm naturalmente mau carácter, má índole e a mania. A mania que sabem tudo, a mania que conhecem tudo, que já experienciaram tudo e por isso a mania que têm um dom que nós, comuns mortais, não temos. Ser mal educado não é um asset. Ser mal educado e mal formado é ser podre. E pobre de espírito. Não sejas assim. Que bom teres mau feitio. Que bom. Ganhas imenso com isso. Já conheci várias dezenas de pessoas com mau feitio. Mas ter mau feitio é demonstrativo de personalidade e de carácter. Ser deseducado e mal formado não. É de baixo nível. E só demonstra que não prestas. As pessoas que não prestam normalmente ficam sozinhas. Até porque honestamente, quem é que quer ter como amigo ou companhia uma pessoa de má índole? Ninguém. E ser imprestável fica(-te) mal. 
Quando BP disse: “Deixa sempre o Mundo um pouco melhor do que o encontraste”, era também a isto que ele se referia. Se fizeres um bocadinho pelos outros todos os dias, estás todos os dias a demonstrar que vales a pena. Que vale a pena seres um ser humano, que vales o ar que respiras. Mas, se ao contrário, só vives bem a cuspir nos outros, não só não trazes nada de inovador ao Mundo, como estás a torná-lo pior. Ser bully na infância é mau, mas a uma criança é possível explicar porque é que não o deve ser e as consequências de o ser. Mas, se ao contrário, és adulto e continuas um bully, é porque não só não prestas, como não mereces a consideração que eventualmente alguém ainda possa ter por ti. Seres intolerável não faz de ti uma pessoa interessante, faz de ti imprestável. E, mais uma vez, o que não presta deve ser deitado fora, sob pena de apodrecer o que está ao ser redor.
Se não és sequer capaz de pensar que aquilo que dizes pode e afecta a vida e os sentimentos dos outros é porque não devias viver em sociedade. Se te comportas como um bicho, deves viver com(o) eles. Os outros seres humanos do Mundo não deviam (ter de) estar expostos a ti, ao teu veneno e à tua crueldade.
O facto de achares que o que dizes não tem mal demonstra bem o que pensas dos e nos outros, ou seja, NADA. A tua pequena cabecinha não concebe que os outros, esses de estirpe baixa, intocáveis e reles seres humanos com quem tu tens o aborrecimento de partilhar o planeta, não têm sentimentos nem são dignos de, ainda que temporariamente, fazer parte dos teus mais infímos pensamentos. No fundo, o que interessa és tu. O teu umbigo também, claro.
Valha-nos o facto de, por ora, sermos a maioria. E claro, de a tua existência não ser coisa de interesse público.