Se
soubessem quantas vezes penso em desligar tudo. Se soubessem quantas vezes
acordo a meio da noite e me apetece pegar no carro e conduzir sem destino.
Quantas
vezes vos imploro por silêncio para poder dar lugar ao meu barulho interior. Quantas
vezes vos dou a mais para ficar com menos, mesmo quando me apetece ficar com
mais. Quantas vezes me apetece deixar-vos nos vossos destinos e voltar para
casa, só pelo silêncio. Quantas vezes o barulho é demais para depois o silêncio
ser demais também.
Quantas
vezes, numa mesa de jantar, repito as mesmas frases, umas atrás das outras, na
tentativa de me fazer entender, para no dia seguinte recomeçar. Quantas vezes
faço o que não me apetece para vos fazer felizes. Quantas vezes cedo para não
me zangar. Quantas vezes me sinto sem apoio, sem nó, sem dó, sem norte. Quantas
vezes começo isto, depois passo para aquilo, depois volto ao isto e quando
acabo o aquilo, ficaram os outros pelo caminho que ainda faltou acabar ou até começar.
Quantos dias passam até me lembrar que preciso de pôr creme nas mãos, ou de limar
as unhas ou de ir cortar o cabelo. Quantas vezes ando com papos nos olhos, semanas
a fio, até os mais honestos (ou antipáticos!) me dizerem – devias tapar essas
olheiras. Quantas vezes me vejo acabada de acordar e só volto a ver-me – com olhos
de ver – no retrovisor do carro antes de vir trabalhar. Quantas vezes me apetece
mandar-vos para um sítio distante – ou mandar-me a mim e deixar-vos cá. Quantas
vezes são as vezes que as Mães, mesmo mães – não aquelas só de título – se querem
mandar para longe? Quantas vezes os 10 minutos que sobram no carro a caminho do
trabalho são, na vida de uma Mãe, o único tempo que tem consigo e só para si? Quantas
vezes me apetece levantar-me às 5 da manhã de sábado, só para poder sentar-me
no pátio a tomar o pequeno-almoço e ler um livro sem cereais nem barrinhas e “não
quero mais leite” e “podemos ver desenhos animados?”.
Provavelmente
não acontecia nada se vocês soubessem. Porque as Mães (sentem todas a
necessidade de provar aos outros que) são capazes de tudo, sozinhas. Nós contra
o Mundo, nós contra tudo. Nós contra tudo muitas vezes resulta também em nós
contra nós próprias, dado que a exigência da vida nem sempre permite espaço
para nós. Quando mais de 80% do nosso dia somos a Mãe na voz deles, na das
professoras, das educadoras, das senhoras e dos senhores das entradas das
escolas, na dos médicos, nas vozes do trabalho (em que somos a Sra. Dra. ou um qualquer
outro título,) ou temos um nickname, e sem saber como, a identidade Francisca, Maria, Joana ou Henriqueta, perde-se algures no tempo.
Perde-se nas reuniões de pais, nas festas de anos, nas loucuras dos dias - que
são já anos.
Não é
culpa de ninguém em particular, mas de todos, no geral. Somos produtos da sociedade que nos torna unipessoais em
sociedades familiares, de comunhão e partilha. Quantas vezes há muitas mais
Mães, em situações em que o seu nome é a menor das suas preocupações. Quantas vezes
o que interessam são eles, sempre eles e - SÓ - eles.
As Mães e
os Pais precisam de mais espaço para existir e co-existir, sob pena de um dia
não conseguirem encontrar a sua própria
identidade; aquela de antes dos filhos, de antes dos cabelos brancos, de antes das
mãos secas, de antes da pele cansada, de antes dos papos debaixo dos olhos.
Arranjemos tempo para que tudo seja possível, passo-a-passo, sem stresses nem
exaustões de parte a parte. Façamos um verdadeiro esforço para que nós, Mães,
forças da Natureza constante e inconstante, estejamos sempre no nosso melhor –
para que o nosso melhor possa ser o melhor para os outros – Aqueles outros todos
que, one way or another, precisam e dependem de nós, com ou sem papos nos olhos.
Fiquem
pois a saber, que com ar olheirento, estoiradas, rotas de cansaço, sujas de
bolachas secas semi-mastigadas no ombro esquerdo, com cabelos brancos e pele
por maquilhar, as Mães serão sempre a força constante que vos leva. E quando
chegar a Vossa vez, lembrem-se sempre do esforço que viram ser feito, para que
vocês pudessem ter tudo (tudo o que era alcançável – e inalcançável). E pensem
também no que viram e percebam o amor de uma Mãe – e os sacríficios que
desse amor advêm. E agradeçam-lhes, porque a(s) Mãe(s) não está(ão) cá para
sempre.
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