Às vezes, não há tempo. Não há tempo para parar e
cheirar as flores. Não há tempo para pensar no que foi ou no que vai ser. Não há
tempo para agarrar o que caiu, nem sequer para dar por ter caído qualquer
coisa. Não há tempo para dar um berro e dizer chega. Não há tempo para
respirar, nem para sonhar nem para pegar ao colo os filhos que temos.
Há tempo para trabalhar, porque no trabalho só há três
ou quatro horários para cumprir. O horário de entrar, de ir a intervalo, de ir
almoçar e o de sair. No trabalho há sempre tempo. Há tempo para pensar no
trabalho, no que temos para fazer depois do trabalho e no que fizemos antes do
trabalho. Depois, bate a hora de sair, e já não há tempo outra vez.
Os sofredores são os mesmos, na corrida dos dias que
passam, das semanas que se transformam em anos, porque é isso que acontece. Os sofredores
da falta de tempo que somos nós. A geração dos millennials (como agora nos chamam). Houve falta de tempo para
crescermos por causa dos telemóveis, da internet e das redes sociais. Houve
falta de tempo porque a televisão Portuguesa chegou em força quando éramos
pequenos, que nos deu acesso aos segredos
que sabemos, cantado em altas vozes a partir das 7 da manhã aos Sábados,
para ver com todo um furor as maravilhas da infância. Sou grata por ter vivido
e fazer parte da ultima geração ANTES da porcaria que se vive agora. De ter
tido de ir ao dicionário quando a meio de uma conversa com o meu Pai se falava
em contradições – e eu, na minha
ignorância infantil desconhecia a expressão –, de ter feito extensos trabalhos pesquisados
em enciclopédias divididas em volumes ordenados alfabeticamente, por ter tido a
oportunidade de olhar para o ar e não para a mão onde posa o telemóvel. Sei que sempre fui um
bocadinho fora da minha idade porque
me ensinaram coisas que me interessaram como os nomes das árvores em latim ou o
nome científico dos insectos a que sou alérgica por ser asmática. Porque isso
não são de todo o tipo de coisas que interessam as pessoas da minha idade. Também
porque apesar de ter obviamente um especial lugar no meu coração - e cabeça -
para a Britney Spears e para os BackStreet Boys – a minha música é música
considerada velha para os meus amigos. Porque dou 5 tostões para ouvir James
Taylor e Barbra Streisand e não dou para ouvir Jack Johnson – ou outros. Consigo
ouvir e apreciar o meu tempo, a minha geração e as pessoas à minha volta. Não vivo
num sonho de voltar ao passado nem de querer viver num qualquer passado.
Mas gostava muito de poder transportar os meus filhos
a um tempo em que tudo não é uma corrida, em que há tempo para cheirar as
flores, em que os telemóveis não têm lugar nem espaço, em que não são eles que
têm as respostas a todas as perguntas. (Suponho que neste momento, não conheço
uma pessoa que, pondo-lhe uma dúvida, não ponha a mão no bolso para ir ver ao
Google – esse tão afável amigo que sabe SEMPRE todas as respostas, até quando
estão erradas. Talvez a Avó... Mas só ela.)
Não quero - de todo! - que vivam no passado, mas quero
que percebam que as supostas facilidades do presente, estão mascaradas,
escondidas e que às vezes estão ali para nos fazer rasteiras, que não resolvem
os nossos problemas e que o Facebook, por exemplo, é muitas vezes uma sopa de
bullies e maldizentes, descrentes, amargurados com a vida. A nossa vida faz-se
de exemplos, os que damos e os que recebemos. Os filhos que temos são o nosso
fruto. Do nosso trabalho, esforço, perseverança, amor ou do contrário de tudo
isto. Depende de nós e dependem de nós. Depois de ouvir uma maravilhosa
entrevista de um cantor actual num programa de Sábado, alegrei-me ao saber que
as pessoas da minha geração já não são assim tão exageradamente loucas como
eram há uns anos, que ainda acreditam no exemplo do casamento dos pais ou avós,
que ainda sabem ir ao jardim sem o telefone, que apreciam passeios ao fim da
tarde – clichés, eu sei. Nos últimos anos tenho feito um esforço, quase
irritante, para aproveitar o tempo que tenho e que é meu. E com ele fazer o que
mais gosto, tentando englobar os meus filhos e marido – às vezes a contragosto –
nessas coisas que são fazer bolachas, passear pelo país, ensinar-lhes coisas
que sei e aprender com eles o que não sei. Falamos de música, de história e de
coisas palermas também. Discutimos os superlativos de palavras giras como estúpido ou – sim eu sei, é infantil e inapropriado
– cócó. Mantenho em mim a Xica Larica
de 4 anos todas as vezes que posso. Não perco nada com isso. Já recebo os
olhares das mães mais velhas que eu porque ando de jardineiras, porque não me
maquilho, porque sou tão novinha, ou
porque canto as músicas do Disney Junior – e as oiço no carro, com ou sem eles.
Sou uma míuda pequena dentro do corpo de uma adulta, que gostava de viver
noutro tempo. De qualquer modo, sou eu. Acho que os meus filhos têm imenso a
ganhar em ter pais “novos”. Apercebo-me com alguma frequência que os pais dos
amigos dos meus filhos têm como filho mais velho filhos da idade do meu filho mais
novo. O gap geracional existe, mas nas cabeças dos outros pais. A maravilha de
tudo isto é que o tempo, quando não falta, é aproveitado com muita energia e
muita vontade. Se tivesse 40 anos, não seria assim. E deste modo, os meus
filhos, serão adolescentes cool, com pais que podem ou não, levá-los a sair à
noite, a seu tempo. Ser novinho é fixe, ser adulto também. Músicas de desenhos
animados ou James Taylor, haja tempo para passarmos com os nossos filhos, que são
nossos até certo ponto. Depois são do Mundo, como o Cine-Girassol.