quinta-feira, 19 de março de 2020

Stay Safe. Stay Home. Keep loving.


Hoje vivi o meu primeiro dia em isolamento voluntário.
Desde quinta-feira que tenho um marido a trabalhar em casa. E desde quinta-feira que tenho dois filhos a esforçarem-se com algum cuidado – mas não muito – para não darem cabo da cabeça a ninguém. Ontem trabalhei na empresa, como segunda e terça. A equipa foi partindo, parte na semana passada, outros esta semana. Ontem saí do trabalho como entrei. Com angústia, a pensar, como estou certa, quase todos nós estávamos, no dia em que voltamos a ver-nos e a juntar-nos. Ainda há uns dias estávamos a almoçar juntos nos hambúrgueres e agora nem sequer podemos abraçar-nos, cumprimentarmo-nos. A coisa mais portuguesa, essa de dar beijinhos e abraços. E agora?
Daqui a quanto tempo posso eu dar um abraço apertado à minha amiga Marta, auxiliar de acção médica no IPO? Dizer-lhe que é maravilhosa, que estamos cheios de fé que todos juntos ultrapassaremos mais este bicho, já lho disse mais que uma vez. Que o que ela faz me enche de orgulho e que tantas vezes penso nela porque ela está com pessoas doentes todos os dias, cheias de tristeza e porque ela os ajuda, no fim e no principio da doença, com tudo o que pode e sabe fazer.
Daqui a quanto tempo posso eu abraçar e dar beijinhos à minha tão querida tia e madrinha Rita, que é enfermeira há tanto tempo? Dizer-lhe o quão fantástica ela é, todas as vezes que vem em auxílio, das filhas e netos, dos sobrinhos e dos sobrinhos-netos, dos irmãos, das cunhadas, da nossa Avó?
Daqui a quanto tempo posso eu abraçar a minha Avó Elisa, GRANDE, ENORME E MARAVILHOSA que é? Quando poderei eu vê-la outra vez, sem a pôr em risco, porque fez 92 anos na terça, porque tem asma, porque está tão bem quanto está cansada? Essa mesma avó, que foi directora da farmácia no IPO de Lisboa, durante mais anos do que os que eu tenho de vida – e já tenho 34!
Quando poderei eu convidar o meu gang, os meus amigos de sempre e para sempre, para uma jantarada, celebrar o que de mais importante há na vida, os meus amigos? Abraçá-los, enchê-los de amor e comida caseira e doces e mimos?
Quando é que vou poder ver os meus sogros, em fase complicadissima da vida, abraçá-los e beijá-los? Dizer-lhes que estamos aqui, ou lá, ou onde fôr preciso?
Vivo há uns dias no mesmo sentimento. Estou num limbo entre: “isto nem parece verdade, estamos num filme” e “eu não vou aguentar o que isto vai provocar”. Acordo com a sensação de que nada aconteceu. Depois acordo e sei que é. E depois lembro-me que é mais um dia em que vamos seguir em frente, continuar a rezar por todos os que estão comigo e os que estão longe de mim, exactamente pelas mesmas razões. Porque de todas as coisas desesperadamente tristes e que me deixam no chão, as que foram antes de eu nascer e as que foram ainda agora, eu nunca senti isto. É intenso, deixa-me perturbada.
Mas mantemo-nos firmes. Seguimos juntos. Seguiremos juntos sempre. Deixou de haver cores, partidos, lados, fronteiras psicológicas. Deixou de haver batalhas campais por coisas de diminuta importância. Estamos sempre juntos, no momento em que mais precisamos uns dos outros.
Faço minhas as palavras de todos os que escreveram antes de mim e escreverão depois de mim: Obrigada aos médicos, enfermeiros, auxiliares de acção médica, bombeiros, paramédicos, polícias, guardas da GNR, soldados, militares, camionistas, transportadores, estivadores, técnicos de HelpDesk e tantos tantos tantos outros que neste momento estão lá para nós podermos estar aqui. Entendam. Levem a sério. Oiçam o que vos dizem. Percebam que não é só uma gripe, que não há possibilidade de imunidade de grupo arriscando a vida a 250 000 pessoas. Agora é a sério.
Sejam bons, solidários, amigos. Tragam de volta o que o ser humano tem de melhor – o amor. Depende de todos nós a poupança de bens nos supermercados e farmácias, para que haja para todos.
SEJAM BONS. A bondade não tira pedaço. E dá, de cada vez, muitíssimo mais do que um rolo de papel higiénico.
Estamos e seguimos juntos. No mundo inteiro.