Nas últimas duas semanas, estivemos só nós os três.
Estive em full-mom-mode. Sozinha, com
dois rapazes, de sete e quatro anos. Que puxam, empurram, sobem e descem.
Eu sei que há Mães que fazem sempre isto. Eu sei que
há Mães que exercem o seu papel por mãe e pai, todos os dias. Há Mães que o fazem
porque os Pais não o fazem. Ou porque os Pais não estão lá. Eu, que fui
abençoada com um marido que me ajuda todos os dias com eles, não estou
habituada a exercer o papel sozinha. Maternizar é um papel difícil. Ser a bruxa
e a má todos os dias é dificil. Ser sempre quem tem de dizer que não é díficil
para mim. Não estou habituada a ser o bad
cop all the time. Todos os dias há mais um degrau para subir. E uns tantos
que eles descem sozinhos. E que nós descemos atrás deles e voltamos a subir, às
vezes com eles ao colo. Faz-nos bem a todos separar-mo-nos temporariamente. Para
descolar maus hábitos, para sentirmos falta uns dos outros, para nos amarmos
mais. Para sabermos que existimos uns sem os outros. É o descolar de um penso que
está colado há dias. Mas depois torna-se tempo “a mais”. Depois eles ficam com
saudades demais, que não sabem ainda controlar e com as quais não sabem lidar. Dói-lhes
o Pai não estar para ajudar, para separar das guerras, para ser ele a
aconchegar à noite. Querem ligar a todas as horas porque não sabem – e não têm
noção - que o Pai está a trabalhar, noutro país. Não percebem o quanto custa
também ao Pai não estar cá, que a ele também lhe dói – e se calhar, mais um
bocadinho, porque está sozinho e nós temo-nos uns aos outros. Tem dias em que
tudo é uma constante batalha com eles mas sem os cinco exércitos. Eu sou um
exército contra os imensos pedidos dos meus halflings.
Para dar um exemplo do que um dia menos bom nos traz, ontem fomos ao Pingo
Doce. E começámos assim:
- “Mãe podemos levar sumo? E cenouras? E morangos? Podemos
levar barrinhas de cereais? E cereais? E batatas fritas? Podemos beber sumo ao
jantar? Podemos ter um chupa? E um gelado? Só temos direito a quatro packs de
cartas? Oh Mãe...
- Podemos ir beber água? Oh Mãe vá lá, está imenso
calor. Oh Mãe 'tou com tosse porque não bebi água suficiente.
- Ah, Mãe, preciso que desinfecte a minha ferida! Mãe,
eu também. Teve sangue. Mãe caí na escola. Outra vez. Em cima da ferida que
tinha feito ontem. Mãe, tá a doer imenso. O João disse que não era nada e
depois ficou com pena de um míudo que caiu no campo. Só se importa com os que
estão a jogar futebol. Dói imenso, Mãe.
- Oh Mãe, não convide X amigo. É um chato. Oh Mãe,
pode desinfectar a minha ferida? Mãe, a música acabou. Mãe, podemos ver as
Tartarugas-Ninja? E depois do banho? E depois do jantar?
- Mãe. Oh Mãe. Mãeeeeeeeeeeeee!!!!! Ele bateu-me. E
ele empurrou-me! Mãe podemos ter um chupa? Vá lá Mãe. Oh Mãe e pastilhas? Estas
são bué boas!!!!”
Assim que chegamos a casa têm tendência para acalmar e
pedir menos. Penso muitas vezes o quanto as crianças pedem e o quanto dou
às minhas. Quase sempre, nego tudo o que me pedem. Quase sempre. Raramente levo porcarias para casa. Pastilhas e chupas
nunca. Trazem das festas e estragam-se na dispensa. (Ainda há uns quinze dias
deitei fora dois saquinhos que vieram de uma distante festa de anos,
praticamente cheios. Só guardei os balões.) Não sei se ontem pediam tanto porque
nunca dou, ou porque o pai não está cá e estão mais carentes, ou se é porque
são todos assim. Mas é tão ultra cansativo passar uma hora a dizer que não,
justificando cada não com “Faz mal, não é bom, já temos, não precisamos, não
precisamos, não precisAMOS!!!!”
Sei que faz parte também da maternidade/paternidade
exercer este controlo sobre eles, que é no fundo, educá-los contra o consumismo
desnecessário e inútil. Sei que eles têm um poder de “moer até ao sim” que é
muitas vezes nele próprio um poder superior ao que a nossa cabeça - cansada e
puída de preocupações e lembretes constantes – pode suportar. O sim vem muitas
vezes como resposta (como um “já não posso mais com pedidos”). Não pode vir. Temos
de ser fortes. Mas há dias em que estamos próximos do deslize, do “que se lixe”,
do “não consigo aguentar mais”. Se há ser humano neste planeta que devia vir
com livro de instruções são os filhos. Mas um livro para cada um, porque são
todos diferentes. Estas mini-pessoas, que têm tantos sentimentos e sensações e
complicações num corpo tão pequenino, ocupam todo o espaço, como a água. Às vezes
ocupam até o espaço que já estava ocupado anteriormente.
Mas o Pai estará de volta amanhã e nós ansiosamente à
espera. A excitação vai mantê-los acordados até mais tarde e amanhã vai ser um
dia de loucos. Mas impagável será mesmo a chegada, e os abraços, e o amor todo –
que estivemos a acumular durante duas semanas - despejado em jacto no Pai Di,
que é e sempre será o nosso mais querido.
Muitas saudades, Di querido. Muitas.
E olha: “Frrruuuuuuu. Frrrrrrrruuuuuuuuuu. Come
baaaaaaack. Come back.”