quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Pai Di e a arte de maternizar

Nas últimas duas semanas, estivemos só nós os três. Estive em full-mom-mode. Sozinha, com dois rapazes, de sete e quatro anos. Que puxam, empurram, sobem e descem.
Eu sei que há Mães que fazem sempre isto. Eu sei que há Mães que exercem o seu papel por mãe e pai, todos os dias. Há Mães que o fazem porque os Pais não o fazem. Ou porque os Pais não estão lá. Eu, que fui abençoada com um marido que me ajuda todos os dias com eles, não estou habituada a exercer o papel sozinha. Maternizar é um papel difícil. Ser a bruxa e a má todos os dias é dificil. Ser sempre quem tem de dizer que não é díficil para mim. Não estou habituada a ser o bad cop all the time. Todos os dias há mais um degrau para subir. E uns tantos que eles descem sozinhos. E que nós descemos atrás deles e voltamos a subir, às vezes com eles ao colo. Faz-nos bem a todos separar-mo-nos temporariamente. Para descolar maus hábitos, para sentirmos falta uns dos outros, para nos amarmos mais. Para sabermos que existimos uns sem os outros. É o descolar de um penso que está colado há dias. Mas depois torna-se tempo “a mais”. Depois eles ficam com saudades demais, que não sabem ainda controlar e com as quais não sabem lidar. Dói-lhes o Pai não estar para ajudar, para separar das guerras, para ser ele a aconchegar à noite. Querem ligar a todas as horas porque não sabem – e não têm noção - que o Pai está a trabalhar, noutro país. Não percebem o quanto custa também ao Pai não estar cá, que a ele também lhe dói – e se calhar, mais um bocadinho, porque está sozinho e nós temo-nos uns aos outros. Tem dias em que tudo é uma constante batalha com eles mas sem os cinco exércitos. Eu sou um exército contra os imensos pedidos dos meus halflings. Para dar um exemplo do que um dia menos bom nos traz, ontem fomos ao Pingo Doce. E começámos assim:
- “Mãe podemos levar sumo? E cenouras? E morangos? Podemos levar barrinhas de cereais? E cereais? E batatas fritas? Podemos beber sumo ao jantar? Podemos ter um chupa? E um gelado? Só temos direito a quatro packs de cartas? Oh Mãe...  
- Podemos ir beber água? Oh Mãe vá lá, está imenso calor. Oh Mãe 'tou com tosse porque não bebi água suficiente.
- Ah, Mãe, preciso que desinfecte a minha ferida! Mãe, eu também. Teve sangue. Mãe caí na escola. Outra vez. Em cima da ferida que tinha feito ontem. Mãe, tá a doer imenso. O João disse que não era nada e depois ficou com pena de um míudo que caiu no campo. Só se importa com os que estão a jogar futebol. Dói imenso, Mãe.
- Oh Mãe, não convide X amigo. É um chato. Oh Mãe, pode desinfectar a minha ferida? Mãe, a música acabou. Mãe, podemos ver as Tartarugas-Ninja? E depois do banho? E depois do jantar?
- Mãe. Oh Mãe. Mãeeeeeeeeeeeee!!!!! Ele bateu-me. E ele empurrou-me! Mãe podemos ter um chupa? Vá lá Mãe. Oh Mãe e pastilhas? Estas são bué boas!!!!”
Assim que chegamos a casa têm tendência para acalmar e pedir menos. Penso muitas vezes o quanto as crianças pedem e o quanto dou às minhas. Quase sempre, nego tudo o que me pedem. Quase sempre. Raramente levo porcarias para casa. Pastilhas e chupas nunca. Trazem das festas e estragam-se na dispensa. (Ainda há uns quinze dias deitei fora dois saquinhos que vieram de uma distante festa de anos, praticamente cheios. Só guardei os balões.) Não sei se ontem pediam tanto porque nunca dou, ou porque o pai não está cá e estão mais carentes, ou se é porque são todos assim. Mas é tão ultra cansativo passar uma hora a dizer que não, justificando cada não com “Faz mal, não é bom, já temos, não precisamos, não precisamos, não precisAMOS!!!!”
Sei que faz parte também da maternidade/paternidade exercer este controlo sobre eles, que é no fundo, educá-los contra o consumismo desnecessário e inútil. Sei que eles têm um poder de “moer até ao sim” que é muitas vezes nele próprio um poder superior ao que a nossa cabeça - cansada e puída de preocupações e lembretes constantes – pode suportar. O sim vem muitas vezes como resposta (como um “já não posso mais com pedidos”). Não pode vir. Temos de ser fortes. Mas há dias em que estamos próximos do deslize, do “que se lixe”, do “não consigo aguentar mais”. Se há ser humano neste planeta que devia vir com livro de instruções são os filhos. Mas um livro para cada um, porque são todos diferentes. Estas mini-pessoas, que têm tantos sentimentos e sensações e complicações num corpo tão pequenino, ocupam todo o espaço, como a água. Às vezes ocupam até o espaço que já estava ocupado anteriormente.
Mas o Pai estará de volta amanhã e nós ansiosamente à espera. A excitação vai mantê-los acordados até mais tarde e amanhã vai ser um dia de loucos. Mas impagável será mesmo a chegada, e os abraços, e o amor todo – que estivemos a acumular durante duas semanas - despejado em jacto no Pai Di, que é e sempre será o nosso mais querido.
Muitas saudades, Di querido. Muitas.

E olha: “Frrruuuuuuu. Frrrrrrrruuuuuuuuuu. Come baaaaaaack. Come back.” 

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