No dia 16 de Maio caí na minha hora de almoço.
Tropecei - nem sei onde - aterrei no sitio onde todo o humano aterra, os seus joelhos. Aterrei nos dois, torci um dedo do pé, bati com a mão direita no chão. Tinha ido comprar cigarros, acabadinhos de ser arrumados na caixa de metal que tenho para eles. Aterrei em cima da caixa. Sobreviveu com amachucos, menos que eu.
Armada em forte, levantei-me a correr, com dores lancinantes nos joelhos, a coxear - pintada de roxo, cheia de vergonha. Mexi-me o mais depressa possível para o meu lugar onde o choque me apanhou na curva da onda e comecei a desmaiar de dor. Com alguma dificuldade, sobrevivi o restante desse dia. Fui buscar os miudos e o Pai, viemos para casa. Fiz o jantar, lavei a loiça, dei banhos. No dia seguinte, com dores excruciantes, fui trabalhar. Pela hora de almoço, já não tinha posição, nem sentada, nem de pé, nem nada. Fui ao Hospital onde estive 6 horas. Fiz cerca de 10 rx's às variadíssimas zonas magoadas.
Há momentos na vida em que amaldiçoamos as origens, as heranças que nos foram deixadas, o que sai geneticamente em nós, sem qualquer responsabilidade dos nossos pais e avós. Mas culpamo-los meio na brincadeira, como se eles podessem ter feito alguma coisa no seu momento para que não tivéssemos herdado aquele "achaque". Pois bem, graças às maravilhas da genética, eu herdei alergias, asma e, entre outras coisas - como um cabelo forte e ondulado e uns grandes olhos pestanudos e castanhos - a hiperlaxidão das articulações. Sou elástica, flexivel, viro as pernas quase ao contrário, tenho más posições em todas as posições e parece que é isso. Mas não é só isso. A caca desta super-hiper-mega condição é que permite aos meus ossos fazer cenas maradas como estenderem-se mais do que podem e levando com eles ao seu extremo, as minhas articulações, os meus tendões, os meus ligamentos. Por causa desta cena fixe, a minha rótula já tinha por hábito, passear-se com alguma liberdade, no meu joelho. Por causa desta cena fixe, a minha queda foi menos aparatosa do que foi grave. Ou seja, entre as inúmeras luxações e sub-luxações dos ligamentos anteriores, posteriores, cruzados e não cruzados, as microfissuras e as finas laminas de liquído, o meu joelho é de acordo com o Dr .João, um molho de brócolos. Brócolos cozidos, em papa, mal cheirosos.
Uma queda que foi simples, resultou tão somente, num joelho inchado, toranja-sized, numa perda de massa muscular - visível ao fim de três semanas - num par de canadianas que são as minhas outras pernas, pelo menos por agora. Resultou em 8 semanas de baixa - and counting - resultou em não poder conduzir praticamente nada, em não conseguir dormir porque não tenho posição, em não conseguir fazer quase nada sem ajuda. Fico cansada só de andar dez minutos de canadianas, está um calor de ananazes e soube a semana passada que ir à praia vai ser dificil este ano, porque a areia é irregular e por isso dificulta a estabilidade do joelho, e consequentemente, da perna. Resultou em 30 sessões de fisio e hidroterapia, que ainda mal vão a meio, choques e contracções musculares.
No fim disto tudo, sou uma pessoa com muita sorte. Há situações na vida que só servem para nos arrumar. Esta terá sido uma delas. Há um rapaz na fisioterapia comigo, que, com apenas 18 anos, teve um acidente de mota. Ficou tetraplégico, faz fisioterapia há mais de 10 anos. Nunca se casou, não teve filhos. A mãe dele vai e vem todos os dias de bem longe para o levar à fisio. Ele e a mãe não têm uma vida normal há mais de 20 anos. Há um outro senhor que não tem uma perna. É avô e pai, vai à fisio todos os dias com a mulher. Há mais de 20 anos que não tem uma vida normal. Há centenas de pessoas que não têm uma vida normal há mais de 20 anos. Há outras centenas que nunca tiveram. A minha experiência é que nós, os afortunados, nos esquecemos depressa (ou não nos lembramos tampouco) que a vida deve ser vivida. Com pernas ou sem elas, com braços ou sem eles. Nós, que temos ou tivemos acidentes que nos deixaram mazelas, não podemos nem devemos nunca esquecer a sorte dentro do azar. Haverá sempre quem sofre mais. Agradeçamos pois, a quem devemos agradecer pelas sortes da vida, que são tão simples e tantas vezes tomadas como garantidas. Nas palavras de Vinicius de Moraes "A vida é p'ra valer; E não se engane não, tem uma só".
Love, live, forgive, repeat. Assim.