sábado, 26 de agosto de 2017

Um "à parte", em defesa das crianças

O sofrimento de uma criança durante a separação e - nem sempre consequente -  divórcio de seus pais é inclassificável. Todos nós, que somos filhos de pais divorciados, sabemos que sim. As experiências podiam fazer-se, nem que fosse para chegarmos à mesma conclusão. O que nos afecta(ou) é sempre diferente. Começa logo por obviamente sermos todos pessoas singulares. Por isso, não vale a pena dizer(em) - psicólogos, advogados, juízes - que sabem o que vai na cabeça dos intervenientes. Nunca é o mesmo, de todas as vezes que um casal decide separar-se. E os filhos estão sempre no caminho, a não ser que vivam noutro planeta. Os nossos pais eram casados e separaram-se. Ou viviam juntos e separaram-se. De qualquer forma, a nossa infelicidade nunca vai ser igual à do próximo filho de pais divorciados/separados. Parece ser inevitável que os filhos sofram e é aí que quero chegar. Se os pais que se vão separar souberem isto de ante-mão, tornam as coisas mais fáceis para eles. Como filha, posso dizer-Vos que o tempo tratou de me limpar a alma e de me resolver - ou possivelmente, arrumar. Mas de todas as vezes que penso nessa época, lembro-me claramente da linha da frente da guerra. Lembro-me da linha da frente. No fim do dia, PAIS DIVORCIADOS ou SEPARADOS, que se LIXEM as vossas merdas. Desculpem a linguagem mas é mesmo assim. Arrastam os filhos para a chantagem emocional, muitas vezes, e dos outros tipos também. Tipo "se disseres que a tua mãe se mete nos copos, podes ficar a viver comigo." Uma criança com treze anos não percebe o que está em causa aqui. NÃO PERCEBE. Argumentarão, com certeza, que um miudo com treze anos sabe o que isso quer dizer. Só que não. Um miudo com treze anos nem sequer tem maturidade emocional ou psicológica suficiente para entender que ao dizer isso está:

- A dar pontos ao advogado do Pai ou da Mãe na batalha das custódias
- A destruir-se por dentro porque NENHUM FILHO NÃO GOSTA DA SUA MÃE ou DO SEU PAI
- A deixar a Mãe ou o Pai devastados, ainda que a Mãe ou o Pai percebam que ele o está a fazer contra si próprio
- E mais uma montanha de outras coisas...

É verdade que o acima pode não se aplicar à criança filha de BG e MMC, porque não os conheço. Mas todas as vezes que disse ou fiz disparates durante e nos anos imediatamente após o divórcio dos meus pais, foi porque achava que isso faria feliz um dos lados da batalha e por consequência faria mal ao outro.  Porque raio quer um filho fazer mal ao seu pai ou mãe durante o divórcio? Porque percebe que isso faz o outro lado feliz. Mesmo que isso só queira dizer trocos a mais na mesada ou mais uns passeios à praia com a entidade parental com quem vivemos, isso na cabeça de treze anos, é muito bom. "Whatever, tanto faz", como diziam os Azeitonas. Se o meu Pai ou Mãe me disse que o outro é uma besta, que se mete ou meteu nos copos, que fuma demais, que toma comprimidos para dormir ou outra coisa qualquer, nós vamos nisso porque eles são o nosso exemplo. É neles que confiamos. Com treze anos, já sabemos imensas coisas, mas não sabemos o quanto isso pode danificar nossa actual e futura relação com os nossos pais e atrevo-me a dizer, com os nossos futuros cônjuges. É uma caca. É uma altura em que estamos cheios de hormonas, que nos odiamos e amamos 100 vezes por dia. Por isso, acho que só chegamos a ter uma noção do que se passou, do que dissemos e do quanto podemos ter magoado alguém, aos vinte ou vinte-cinco anos, talvez até mais tarde. Esta lavagem de roupa suja, nas redes sociais e revistas sobre a criança e o que alegadamente terá dito, é nojenta. Entendam, num modo um pouco à Chelsea Clinton relativamente ao filho de Trump, que tal defendermos as crianças deste casal, que não têm culpa do que os pais fazem ou fizeram, dizem ou disseram? Que tal não alimentarmos as merdices e mesquinhices dos adultos para que estas crianças sejam salvaguardadas? Serei eu uma das poucas pessoas que se preocupa com o presente e futuro destes dois meninos, que estão a ser arrastados pela lama nas revistas com o objectivo de vender? Estamos a falar de um pré-adolescente, numa escola em que provavelmente toda a gente sabe quem são a mãe e o pai, desde aos empregados de limpeza à direcção da escola. Por isso, apelo aos adultos, que se comportem como adultos, que não alimentem estas porcarias destas conversas, revistas, posts, capas ou outros. Deixem estas crianças em paz, deixem de os arrastar para tribunal, deixem de os fazer sentir que faz sentido irem para tribunal apontar o dedo ao outro, que é horrível, que bebe, que bate, que maltrata. Ninguém é perfeito. Não defendo nem apoio BG ou MMC. Defendo os pequenos miudos envolvidos nesta lama. Ponham as crianças acima dos vossos supostos interesses materiais ou outros. 
Acima de tudo, defendam os vossos filhos, sobrinhos e netos para que não sofram mais do que o estritamente necessário, já que esse sofrimento é inevitável. Mas não usem as crianças como armas de arremesso, não usem as crianças. Amem-nas o melhor que sabem. É disso que eles precisam, de amor. De carinho, de atenção, de mimo. Façam-nas sentir que são o mais importante. Eles são vossos, tomem conta deles. No futuro, são eles que aqui estarão, ou não. E isso, isso depende inteiramente da família nuclear e da família que os rodeia.
Amem os vossos filhos. E, na medida do possível, deixem as merdas do divórcio fora das cabeças deles. Let that be only and exclusively your problem, not theirs.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Quando as férias chegam

As férias chegaram. 
Com elas, voltaram os filhos à casa-Mãe, que é como quem diz, a loucura, o barulho, o propriamente dito trabalho regressou. Voltaram as refeições feitas a horas, as horas de ir para a cama - se bem que estas últimas nem tanto assim. 
A primeira semana ficaram só comigo, nós os três, numa luta incessante de decisões difíceis, como escolher a piscina ou a praia. No primeiro dia, fomos à piscina oceânica. Quase como uma boa Mãe, às 9 estávamos a sair de casa. Às 9.25 a estacionar na marina de Oeiras que merece ser mencionada pela loucura de cobrar apenas 2€ por um dia quase inteiro de parquímetro. Como disse, eram 9.25. Os ditos 2€ serviriam até às 17.30. Podíamos ter ficado até essa hora, mas o plano era outro. 
Não sou Mãe de ir para estes sitios, naturalmente à pinha em Agosto, transbordantes de míudos pouco educados e adultos no mesmo estilo com um vocabulário de fazer corar os antigos e os novos taberneiros. Don´t get me wrong, eu também digo palavras menos bonitas. Mas não assim, não num recinto apinhado de piolhinhos pequeninos, ainda menos com o orgulho que os oiço dizer. 
O R e o F fizeram um amigo nos primeiros dez/quinze minutos - o T. A partir desse momento, o meu primeiro dia de férias oficial com eles foi babysitt. "Não vão para aí, não vão para ali, preciso de vos ver a todos os minutos, não saltem, não chapinhem, não atirem água às senhoras". (Parece estranha esta última afirmação mas digo-o constantemente aos míudos. É ofensivo como TUDO estar a entrar cuidadosamente na água - mar ou piscina - e ser borrifado por meia dúzia de esprenéficas criaturas miniatura, sem qualquer tipo de noção de que A PRAIA/PISCINA É DE TODOS. É por isso que não nos sentamos em cima dos outros, que não gritamos, que não estamos em casa.) Cada um de nós é - espera-se - tão ser humano como o próximo. Mas nalgumas praias, especialmente as da linha antes de Carcavelos, ou seja, child friendly, sem ondas, pouco espaço de fuga, etc., as pessoas comportam-se como se tivessem direitos superiores por terem chegado primeiro ou por viverem ali na zona. Só que não. A praia, as praias, SÃO DE TODOS. 
Na hora seguinte, mudaram o disco - vulgo cassete - porque "Oh Mãe, estamos cheios de fome, a morrer de fome, a passar fome" ou outra qualquer versão semelhante. Depois de um robusto pequeno-almoço às 8.30, às 10.30 estão a morrer de fome. Só há porcarias no bar - ou seja, há bolos tipo mil-folhas, bolas de berlim, pastéis de nata. Não há bolos de arroz, nem queques nem nada sem creme. Num Mundo tão preocupado com a alimentação que obriga a beber a cada 15 dias, quando o sol se põe em Narnia e os planetas estão alinhados em Vénus, um sumo verde-quase-alface, de seu nome detox, não há nada seco/sem quilos de químicos, para crianças. Estamos preocupados mas não há regras para que num sítio público a escolha não seja só os três bolos mais calóricos que se fazem em Lisboa. As mães não podem levar comida para a piscina, ou podem mas não podem comer lá dentro. Como já conheço a festa, comemos um pastel de nata, que dos três, sempre é o menos terrível. 
Estou constantemente ansiosa que metam a mão nas nossas coisas, por isso, sempre de olhos postos na minha toalha e restantes cacas de Mãe e de filhos, fomos os três à piscina grande. Mergulho sozinha, com os doidos sentados na borda da parte mais baixa da piscina. No way que eles entram sozinhos na água. O R fica com um palmo de água acima da cabeça, o F fica com três.  Sou uma chata, a maior das chatas, a mais melga das mães. Mas entram de mão dada, comigo, um a um, e seguram-se com unhas e dentes a mim, ao meu pescoço. Apesar do R já saber nadar, a água não é uma brincadeira. É num instante que eles vão ao fundo, se cansam, não conseguem mexer-se por causa do frio - por isso, sou uma chata. Ainda bem que sou, porque os meus sabem exactamente o que deixo e não deixo. 
Passámos o resto das horas até ao almoço na brincadeira, entre "estou cheio de frio"'s e cinco minutos depois "já tenho calor, posso ir para a água?"s. Comemos um cachorro cada um, que custou mais do que valia, mas foi divertido. Até às três, brincámos, nadámos, fizemos jogos com a bola do Faísca. 
Depois fomos para casa tomar banho e fomos buscar o Pai. 
No dia seguinte, foi feriado. Passámos o dia na praia, na nossa praia, com um lanche daqui à Lua, que a Mãe Xica fez. Quando a Mãe quer e tem paciência, há iogurtes para os quatro gostos, chá frio com limão, montanhas de pêssegos e maçãs aos quadradinhos num super tupperware, há pãezinhos para os pais, massas frias com salsichas para os pequenos, e às vezes, até há miminhos, tipo Kinder. Somos doidos e passamos os dias possivelmente inteiros na praia. Este dia em específico foi dos melhores que já tivemos em família. Brincámos imenso, passeámos imenso. No fim do dia, porque a Mãe estava nos píncaros de alegria por um dia sem guerrinhas, fomos comer caracóis. Andava a sonhar com caracóis, com uma imperial fresca depois de um dia como aquele.
Side-Note: Para todas as Mães e Pais, eu sei que às vezes as outras famílias com filhos parecem um espectáculo. Os míudos parecem estar sempre arrumadinhos, não se portam mal, não temos de gritar nem conjurar uns feitiços à Sauron. A minha experiência, é que é tudo aparência. Há dias fantásticos, em que é de facto assim, Mas a maioria dos dias, os míudos, ou só um deles, está de mau génio ou dormiu mal, não está de acordo com nenhuma decisão ou ordem parental, ou não quer só porque sim. Eles, todos eles, independentemente da idade, tiram-nos do sério e deixam-nos do avesso. 
O dia que passámos nesse feriado foi um dia maravilhoso. Estar de férias é óptimo. Porque os filhos estão de melhor com a vida do que nos outros dias. Porque nós também estamos de melhor com a vida. Porque podemos dedicar-nos uns aos outros com amor e mais nada. Por isso, e mais uma vez digo, mais amor. E mais dedicação às famílias.
Por aqui, as férias continuam e o amor também.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Saudades dos filhos

Há dias em que acordar é um mau princípio. Há dias que não devíamos sair da cama. Não o sabemos, claro, mas não devíamos. Há dias em que o silêncio matinal de uma casa com menos duas crianças é tortura. Há dias em que não passar a noite a acordar é estranho. Todos os dias da semana que passou parecia haver algo de errado lá em casa. O som dos filhos é algo que nunca sai da minha cabeça. A casa está vazia, mas nós estamos lá. O facto de eles não estarem faz diferença, cá uma diferença! Chegar a casa e simplesmente existir é coisa que não acontece senão nesta altura do ano. Deixamo-nos para trás em 90% dos dias do ano, somos os últimos a ir à casa de banho quando chegamos, somos os últimos a comer, somos os últimos a ir para a cama. É isto que é ser entidade parental. Sei que os pais e mães quase todos do Mundo passam por isto. Alguns muito tempo, outros menos tempo. Pôr-mo-nos para trás para os pôr à frente é essencialmente amor. É por amor a eles que o fazemos, não por desamor a nós. Quando a sobrevivência deles está nas nossas mãos, não há mais nada em questão. Eles estão à frente mesmo quando não querem estar. Sabemos que os filhos são as pessoas que mais nos amam – provavelmente, porque o amor não é mensurável. E depois de passar 11 meses e meio a viver com eles, a tomar conta de todas as suas necessidades primeiro, a dar-lhes de comer, a vesti-los e penteá-los, a dar-lhes banho e pôr-lhes creme e a prepará-los para quaisquer passeios, aulas ou festas, nestas raras duas semanas por ano em que não estou com eles mais do que 48 horas seguidas, durmo MAL. Passo as noites às voltas, acordo quase de hora a hora. Viro-me de um lado para o outro, inquieta. Há quatro ou cinco dias que ando nisto. Só hoje me passou pela cabeça que se calhar, só se calhar, tenho saudades dos meus filhos. Se calhar eles fazem-me muito mais falta do que eu lhes faço, porque ainda não pensam nisso. Se calhar, os meus meninos são muito mais do que o meu trabalho de os educar, limpar e manter limpos, alimentar e vestir e ensinar. Se calhar, os meus princípes são meus – tanto quanto um filho é de um pai – e por isso, dormir sem eles debaixo do meu tecto é coisa a que o meu corpo e –  maioritariamente – a minha cabeça, não vai habituar-se tão facilmente. Ah, os filhos. Que criaturas tão maravilhosas e loucas são os (meus) filhos. Oiço “aproveitem, vão sair, dêem passeios, vão jantar fora, etc, etc.” e nós, aproveitamos para descansar. Para ficar a aboborar no sofá, pé estendido, qual dondoca. Claramente, fui feita para ter os meus bébés ao pé de mim, não para os ter longe, ainda que por pouco tempo. Muitas vezes penso quanto eu gostava de poder estar muito mais tempo com eles, como gostava que o tempo se estendesse – e tivesse estendido no passado, no tempo em que os animais falavam e gordinhos eram bébés – para eu ter mais tempo de qualidade com eles. As férias são forçosamente agora, obriga a escola, obrigada pelo Estado, que obriga os pais, avós, tios e padrinhos a virarem-se do avesso para cobrir os malfadados 22 dias que a escola fecha. Eles amam esta loucura de saltar de praia para campo para praia para campo. Por enquanto, as saudades mantêm-se.

Daqui a uma semana já os rifo, porque já vou estar louca de tanto me zangar, mandar, acordar a meio da noite, e tudo o resto que fazemos quando eles estão presentes.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Liberdade da entidade parental

Parece haver uma liberdade nos adultos que só dura enquanto somos crianças. 
Os adultos ficam acordados até tarde. Os adultos podem comprar o que quiserem. Os adultos têm sempre dinheiro. Tomam banho quando lhes apetece. Escolhem o que é o jantar. Só comem sopa se lhes apetecer. Podem ir jantar fora quando querem. Podem andar de carro, escolher a musica, ligar o ar condicionado. Podem andar sem cadeirinha. Têm montes de coisas fixes. Estão com os amigos muitas vezes. Os adultos também podem beber café. Podem ir ao médico sem os pais. Os adultos podem sair depois do sol se pôr e podem escolher não levar as crianças. Os adultos podem votar. Podem ir à Missa, à praia, visitar os avós sempre que querem. Não precisam de ir à escola. Nem de fazer trabalhos de casa. Nem de estudar. Nem de ir à faculdade. Nem de fazer serões a escrever textos de 2500 palavras, com espaçamento 1,5, em Times New Roman, para entregar no dia seguinte. Os adultos têm imenso tempo para fazer coisas giras, tipo pintar paredes ou escrever cartas ou ler livros. Os adultos podem brincar com as coisas das crianças. Os adultos podem fumar e beber, à vontade. Não precisam de se esconder. Os adultos podem mesmo tudo. Os adultos têm imensa liberdade.
As crianças têm de ir para a cama cedo – porque faz bem ir para a cama cedo, porque estabiliza o crescimento do cérebro e neurónios e porque se levantam cedo no dia seguinte. As crianças devem ter tudo o que precisam, fornecido pela respectiva entidade parental. As crianças tomam banho à noite porque chegam da escola a cheirar a rapozecos, peganhentos e – muitas vezes – mal cheirosos. As crianças precisam de comer de tudo, por isso, comem o que os pais mandam. Comem sopa porque faz bem, porque tem legumes e porque toda a gente o devia fazer. As crianças jantam fora quando os pais deixam porque não têm idade para o fazer sozinhas. As crianças não podem conduzir, ouvem o que pedem com educação para ouvir quando os pais permitem e lhes apetece duas infinitas horas de música da Disney em repeat. Têm de andar de cadeirinha porque é obrigatório, porque é seguro, porque sim! As crianças têm brinquedos que lhes dão os pais, avós, tios, tios emprestados, padrinhos, madrinhas, e que infernizam os pais. Estão com os amigos na escola todos os dias, vêe