As férias chegaram.
Com elas, voltaram os filhos à casa-Mãe, que é como quem diz, a loucura, o barulho, o propriamente dito trabalho regressou. Voltaram as refeições feitas a horas, as horas de ir para a cama - se bem que estas últimas nem tanto assim.
A primeira semana ficaram só comigo, nós os três, numa luta incessante de decisões difíceis, como escolher a piscina ou a praia. No primeiro dia, fomos à piscina oceânica. Quase como uma boa Mãe, às 9 estávamos a sair de casa. Às 9.25 a estacionar na marina de Oeiras que merece ser mencionada pela loucura de cobrar apenas 2€ por um dia quase inteiro de parquímetro. Como disse, eram 9.25. Os ditos 2€ serviriam até às 17.30. Podíamos ter ficado até essa hora, mas o plano era outro.
Não sou Mãe de ir para estes sitios, naturalmente à pinha em Agosto, transbordantes de míudos pouco educados e adultos no mesmo estilo com um vocabulário de fazer corar os antigos e os novos taberneiros. Don´t get me wrong, eu também digo palavras menos bonitas. Mas não assim, não num recinto apinhado de piolhinhos pequeninos, ainda menos com o orgulho que os oiço dizer.
O R e o F fizeram um amigo nos primeiros dez/quinze minutos - o T. A partir desse momento, o meu primeiro dia de férias oficial com eles foi babysitt. "Não vão para aí, não vão para ali, preciso de vos ver a todos os minutos, não saltem, não chapinhem, não atirem água às senhoras". (Parece estranha esta última afirmação mas digo-o constantemente aos míudos. É ofensivo como TUDO estar a entrar cuidadosamente na água - mar ou piscina - e ser borrifado por meia dúzia de esprenéficas criaturas miniatura, sem qualquer tipo de noção de que A PRAIA/PISCINA É DE TODOS. É por isso que não nos sentamos em cima dos outros, que não gritamos, que não estamos em casa.) Cada um de nós é - espera-se - tão ser humano como o próximo. Mas nalgumas praias, especialmente as da linha antes de Carcavelos, ou seja, child friendly, sem ondas, pouco espaço de fuga, etc., as pessoas comportam-se como se tivessem direitos superiores por terem chegado primeiro ou por viverem ali na zona. Só que não. A praia, as praias, SÃO DE TODOS.
Na hora seguinte, mudaram o disco - vulgo cassete - porque "Oh Mãe, estamos cheios de fome, a morrer de fome, a passar fome" ou outra qualquer versão semelhante. Depois de um robusto pequeno-almoço às 8.30, às 10.30 estão a morrer de fome. Só há porcarias no bar - ou seja, há bolos tipo mil-folhas, bolas de berlim, pastéis de nata. Não há bolos de arroz, nem queques nem nada sem creme. Num Mundo tão preocupado com a alimentação que obriga a beber a cada 15 dias, quando o sol se põe em Narnia e os planetas estão alinhados em Vénus, um sumo verde-quase-alface, de seu nome detox, não há nada seco/sem quilos de químicos, para crianças. Estamos preocupados mas não há regras para que num sítio público a escolha não seja só os três bolos mais calóricos que se fazem em Lisboa. As mães não podem levar comida para a piscina, ou podem mas não podem comer lá dentro. Como já conheço a festa, comemos um pastel de nata, que dos três, sempre é o menos terrível.
Estou constantemente ansiosa que metam a mão nas nossas coisas, por isso, sempre de olhos postos na minha toalha e restantes cacas de Mãe e de filhos, fomos os três à piscina grande. Mergulho sozinha, com os doidos sentados na borda da parte mais baixa da piscina. No way que eles entram sozinhos na água. O R fica com um palmo de água acima da cabeça, o F fica com três. Sou uma chata, a maior das chatas, a mais melga das mães. Mas entram de mão dada, comigo, um a um, e seguram-se com unhas e dentes a mim, ao meu pescoço. Apesar do R já saber nadar, a água não é uma brincadeira. É num instante que eles vão ao fundo, se cansam, não conseguem mexer-se por causa do frio - por isso, sou uma chata. Ainda bem que sou, porque os meus sabem exactamente o que deixo e não deixo.
Passámos o resto das horas até ao almoço na brincadeira, entre "estou cheio de frio"'s e cinco minutos depois "já tenho calor, posso ir para a água?"s. Comemos um cachorro cada um, que custou mais do que valia, mas foi divertido. Até às três, brincámos, nadámos, fizemos jogos com a bola do Faísca.
Depois fomos para casa tomar banho e fomos buscar o Pai.
No dia seguinte, foi feriado. Passámos o dia na praia, na nossa praia, com um lanche daqui à Lua, que a Mãe Xica fez. Quando a Mãe quer e tem paciência, há iogurtes para os quatro gostos, chá frio com limão, montanhas de pêssegos e maçãs aos quadradinhos num super tupperware, há pãezinhos para os pais, massas frias com salsichas para os pequenos, e às vezes, até há miminhos, tipo Kinder. Somos doidos e passamos os dias possivelmente inteiros na praia. Este dia em específico foi dos melhores que já tivemos em família. Brincámos imenso, passeámos imenso. No fim do dia, porque a Mãe estava nos píncaros de alegria por um dia sem guerrinhas, fomos comer caracóis. Andava a sonhar com caracóis, com uma imperial fresca depois de um dia como aquele.
Side-Note: Para todas as Mães e Pais, eu sei que às vezes as outras famílias com filhos parecem um espectáculo. Os míudos parecem estar sempre arrumadinhos, não se portam mal, não temos de gritar nem conjurar uns feitiços à Sauron. A minha experiência, é que é tudo aparência. Há dias fantásticos, em que é de facto assim, Mas a maioria dos dias, os míudos, ou só um deles, está de mau génio ou dormiu mal, não está de acordo com nenhuma decisão ou ordem parental, ou não quer só porque sim. Eles, todos eles, independentemente da idade, tiram-nos do sério e deixam-nos do avesso.
O dia que passámos nesse feriado foi um dia maravilhoso. Estar de férias é óptimo. Porque os filhos estão de melhor com a vida do que nos outros dias. Porque nós também estamos de melhor com a vida. Porque podemos dedicar-nos uns aos outros com amor e mais nada. Por isso, e mais uma vez digo, mais amor. E mais dedicação às famílias.
Por aqui, as férias continuam e o amor também.
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