Há dias em que acordar é um mau
princípio. Há dias que não devíamos sair da cama. Não o sabemos, claro, mas não
devíamos. Há dias em que o silêncio matinal de uma casa com menos duas crianças
é tortura. Há dias em que não passar a noite a acordar é estranho. Todos os
dias da semana que passou parecia haver algo de errado lá em casa. O som dos
filhos é algo que nunca sai da minha cabeça. A casa está vazia, mas nós estamos
lá. O facto de eles não estarem faz diferença, cá uma diferença! Chegar a casa
e simplesmente existir é coisa que não acontece senão nesta altura do ano. Deixamo-nos
para trás em 90% dos dias do ano, somos os últimos a ir à casa de banho quando
chegamos, somos os últimos a comer, somos os últimos a ir para a cama. É isto
que é ser entidade parental. Sei que os pais e mães quase todos do Mundo passam
por isto. Alguns muito tempo, outros menos tempo. Pôr-mo-nos para trás para os
pôr à frente é essencialmente amor. É por amor a eles que o fazemos, não por
desamor a nós. Quando a sobrevivência deles está nas nossas mãos, não há mais
nada em questão. Eles estão à frente mesmo quando não querem estar. Sabemos que
os filhos são as pessoas que mais nos amam – provavelmente, porque o amor não é
mensurável. E depois de passar 11 meses e meio a viver com eles, a tomar conta
de todas as suas necessidades primeiro, a dar-lhes de comer, a vesti-los e
penteá-los, a dar-lhes banho e pôr-lhes creme e a prepará-los para quaisquer
passeios, aulas ou festas, nestas raras duas semanas por ano em que não estou com
eles mais do que 48 horas seguidas, durmo MAL. Passo as noites às voltas,
acordo quase de hora a hora. Viro-me de um lado para o outro, inquieta. Há quatro
ou cinco dias que ando nisto. Só hoje me passou pela cabeça que se calhar, só
se calhar, tenho saudades dos meus filhos. Se calhar eles fazem-me muito mais
falta do que eu lhes faço, porque ainda não pensam nisso. Se calhar, os meus
meninos são muito mais do que o meu trabalho de os educar, limpar e manter
limpos, alimentar e vestir e ensinar. Se calhar, os meus princípes são meus – tanto quanto um filho é de um pai
– e por isso, dormir sem eles debaixo do meu tecto é coisa a que o meu corpo e –
maioritariamente – a minha cabeça, não
vai habituar-se tão facilmente. Ah, os filhos. Que criaturas tão maravilhosas e
loucas são os (meus) filhos. Oiço “aproveitem, vão sair, dêem passeios, vão
jantar fora, etc, etc.” e nós, aproveitamos para descansar. Para ficar a
aboborar no sofá, pé estendido, qual dondoca. Claramente, fui feita para ter os
meus bébés ao pé de mim, não para os ter longe, ainda que por pouco tempo. Muitas
vezes penso quanto eu gostava de poder estar muito mais tempo com eles, como
gostava que o tempo se estendesse – e tivesse estendido no passado, no tempo em
que os animais falavam e gordinhos eram bébés – para eu ter mais tempo de qualidade
com eles. As férias são forçosamente agora, obriga a escola, obrigada pelo
Estado, que obriga os pais, avós, tios e padrinhos a virarem-se do avesso para
cobrir os malfadados 22 dias que a escola fecha. Eles amam esta loucura de
saltar de praia para campo para praia para campo. Por enquanto, as saudades
mantêm-se.
Daqui a uma semana já os rifo,
porque já vou estar louca de tanto me zangar, mandar, acordar a meio da noite,
e tudo o resto que fazemos quando eles estão presentes.
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