terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Liberdade da entidade parental

Parece haver uma liberdade nos adultos que só dura enquanto somos crianças. 
Os adultos ficam acordados até tarde. Os adultos podem comprar o que quiserem. Os adultos têm sempre dinheiro. Tomam banho quando lhes apetece. Escolhem o que é o jantar. Só comem sopa se lhes apetecer. Podem ir jantar fora quando querem. Podem andar de carro, escolher a musica, ligar o ar condicionado. Podem andar sem cadeirinha. Têm montes de coisas fixes. Estão com os amigos muitas vezes. Os adultos também podem beber café. Podem ir ao médico sem os pais. Os adultos podem sair depois do sol se pôr e podem escolher não levar as crianças. Os adultos podem votar. Podem ir à Missa, à praia, visitar os avós sempre que querem. Não precisam de ir à escola. Nem de fazer trabalhos de casa. Nem de estudar. Nem de ir à faculdade. Nem de fazer serões a escrever textos de 2500 palavras, com espaçamento 1,5, em Times New Roman, para entregar no dia seguinte. Os adultos têm imenso tempo para fazer coisas giras, tipo pintar paredes ou escrever cartas ou ler livros. Os adultos podem brincar com as coisas das crianças. Os adultos podem fumar e beber, à vontade. Não precisam de se esconder. Os adultos podem mesmo tudo. Os adultos têm imensa liberdade.
As crianças têm de ir para a cama cedo – porque faz bem ir para a cama cedo, porque estabiliza o crescimento do cérebro e neurónios e porque se levantam cedo no dia seguinte. As crianças devem ter tudo o que precisam, fornecido pela respectiva entidade parental. As crianças tomam banho à noite porque chegam da escola a cheirar a rapozecos, peganhentos e – muitas vezes – mal cheirosos. As crianças precisam de comer de tudo, por isso, comem o que os pais mandam. Comem sopa porque faz bem, porque tem legumes e porque toda a gente o devia fazer. As crianças jantam fora quando os pais deixam porque não têm idade para o fazer sozinhas. As crianças não podem conduzir, ouvem o que pedem com educação para ouvir quando os pais permitem e lhes apetece duas infinitas horas de música da Disney em repeat. Têm de andar de cadeirinha porque é obrigatório, porque é seguro, porque sim! As crianças têm brinquedos que lhes dão os pais, avós, tios, tios emprestados, padrinhos, madrinhas, e que infernizam os pais. Estão com os amigos na escola todos os dias, vêe
m-se horas a fio. As crianças não podem, nem precisam, de beber café porque faz mal e porque eles não têm de se manter acordados depois do almoço ou depois de uma noitada. As crianças não têm noitadas. As crianças vão com os pais ao médico porque os pais têm de saber tudo o que se passa com eles. As crianças podem sair com os pais, quando os pais deixam e é apropriado. As crianças não podem votar porque imaginem só! As crianças são levadas à Missa e à praia e a visitar os avós sempre que é possível. As crianças precisam de ir à escola para aprenderem e crescerem informadas sobre o seu meio ambiente. Fazem trabalhos de casa para consolidar aprendizagem e conhecimento. Estudam com o mesmo efeito. Vão à faculdade para se especializar no que gostam de fazer. Fazem textos de 2500 palavras porque os professores exageram e puxam para que os alunos saibam usar a sua Língua Materna como devem. As crianças têm como principal obrigação - brincar. Podem fazer plasticina, barro, digitinta, usar aventais de plástico. As crianças têm Lego’s e carrinhos, Barbie’s e Ken’s, Nenucos, Playmobil’s. As crianças não fumam nem bebem, porque é estupido e inapropriado, porque faz mal e porque obviamente, os pais não deixam. As crianças não podem fazer nada. Ser criança é uma seca.
Fogo, os adultos têm imensa sorte.
Os adultos deitam-se tarde – e arrependem-se amargamente quando 5 ou 6 horas depois, o despertador toca. Os adultos não podem comprar o que querem – mera ilusão. O dinheiro serve para pagar contas, pagar escolas, pagar comida. Os adultos tomam banho de manhã - numa tentativa muitas vezes frustrada de acordar violentamente, porque só dormiram 5 ou 6 horas. Os adultos escolhem o jantar – porque é o que há em casa, porque apetece mais que outra coisa. Comem sopa - ou não, dependendo se há suficiente para as crianças. Jantam fora – uma vez de 6 em 6 meses, porque gostam de ouvir falar os outros adultos com quem estão, sem interrupções. A maioria das vezes, os adultos não querem conduzir, não querem ouvir música, não querem o ar condicionado ligado. Não querem ter de usar o cinto, mas é obrigatório. As coisas fixes são telemóveis, bombardeados com chamadas da escola, os iPads cheios de jogos parvos para distrair os miúdos. Vêm os amigos quando podem, esticam-se à enésima hora, porque se vêm duas a quatro vezes por ano. Os adultos bebem café - como uma necessidade, na maioria das vezes, porque é preciso estar acordado durante o dia, quando se é adulto. Os adultos vão ao médico sem os pais – mas se pudessem iam com os pais, ou só um deles, para ter colo e mimo. Os adultos podem sair e voltar depois do sol se pôr – mas se forem inteligentes e prezarem o descanso mental, não o fazem muito. Os adultos podem votar – mas muitas vezes preferem não o fazer. Podem ir à Missa, à praia, visitar os avós sempre que querem – nunca têm tempo para descansar, por isso acontece pouco. Não precisam de ir à escola – porque já foram. Nem de fazer trabalhos de casa – às vezes trocá-los-iam por trabalhos de casa de adulto, i.e. lavar o carro ou acabar aquele e-mail que não se conseguiu mandar durante o expediente. Nem de estudar – que saudades de o fazer. Nem de ir à faculdade – e poder faltar às aulas? Nem de fazer serões a escrever textos de 2500 palavras, com espaçamento 1,5, em Times New Roman, para entregar no dia seguinte – e pensar nas imensas contas para pagar. Os adultos têm imenso tempo para fazer coisas giras, tipo pintar paredes ou escrever cartas ou ler livros – ou pagar contas, aspirar a casa, passar a ferro aquela pilha que se ri para nós há duas semanas. Os adultos podem brincar com as coisas das crianças – e nunca há tempo suficiente para o fazer. Os adultos podem fumar e beber, à vontade – que estupidos que são os adultos. Não precisam de se esconder – porque são parvos. Os adultos podem mesmo tudo – menos tudo o resto. Os adultos têm imensa liberdade.
Fogo... ser criança é tão giro...!

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