quinta-feira, 19 de março de 2020

Stay Safe. Stay Home. Keep loving.


Hoje vivi o meu primeiro dia em isolamento voluntário.
Desde quinta-feira que tenho um marido a trabalhar em casa. E desde quinta-feira que tenho dois filhos a esforçarem-se com algum cuidado – mas não muito – para não darem cabo da cabeça a ninguém. Ontem trabalhei na empresa, como segunda e terça. A equipa foi partindo, parte na semana passada, outros esta semana. Ontem saí do trabalho como entrei. Com angústia, a pensar, como estou certa, quase todos nós estávamos, no dia em que voltamos a ver-nos e a juntar-nos. Ainda há uns dias estávamos a almoçar juntos nos hambúrgueres e agora nem sequer podemos abraçar-nos, cumprimentarmo-nos. A coisa mais portuguesa, essa de dar beijinhos e abraços. E agora?
Daqui a quanto tempo posso eu dar um abraço apertado à minha amiga Marta, auxiliar de acção médica no IPO? Dizer-lhe que é maravilhosa, que estamos cheios de fé que todos juntos ultrapassaremos mais este bicho, já lho disse mais que uma vez. Que o que ela faz me enche de orgulho e que tantas vezes penso nela porque ela está com pessoas doentes todos os dias, cheias de tristeza e porque ela os ajuda, no fim e no principio da doença, com tudo o que pode e sabe fazer.
Daqui a quanto tempo posso eu abraçar e dar beijinhos à minha tão querida tia e madrinha Rita, que é enfermeira há tanto tempo? Dizer-lhe o quão fantástica ela é, todas as vezes que vem em auxílio, das filhas e netos, dos sobrinhos e dos sobrinhos-netos, dos irmãos, das cunhadas, da nossa Avó?
Daqui a quanto tempo posso eu abraçar a minha Avó Elisa, GRANDE, ENORME E MARAVILHOSA que é? Quando poderei eu vê-la outra vez, sem a pôr em risco, porque fez 92 anos na terça, porque tem asma, porque está tão bem quanto está cansada? Essa mesma avó, que foi directora da farmácia no IPO de Lisboa, durante mais anos do que os que eu tenho de vida – e já tenho 34!
Quando poderei eu convidar o meu gang, os meus amigos de sempre e para sempre, para uma jantarada, celebrar o que de mais importante há na vida, os meus amigos? Abraçá-los, enchê-los de amor e comida caseira e doces e mimos?
Quando é que vou poder ver os meus sogros, em fase complicadissima da vida, abraçá-los e beijá-los? Dizer-lhes que estamos aqui, ou lá, ou onde fôr preciso?
Vivo há uns dias no mesmo sentimento. Estou num limbo entre: “isto nem parece verdade, estamos num filme” e “eu não vou aguentar o que isto vai provocar”. Acordo com a sensação de que nada aconteceu. Depois acordo e sei que é. E depois lembro-me que é mais um dia em que vamos seguir em frente, continuar a rezar por todos os que estão comigo e os que estão longe de mim, exactamente pelas mesmas razões. Porque de todas as coisas desesperadamente tristes e que me deixam no chão, as que foram antes de eu nascer e as que foram ainda agora, eu nunca senti isto. É intenso, deixa-me perturbada.
Mas mantemo-nos firmes. Seguimos juntos. Seguiremos juntos sempre. Deixou de haver cores, partidos, lados, fronteiras psicológicas. Deixou de haver batalhas campais por coisas de diminuta importância. Estamos sempre juntos, no momento em que mais precisamos uns dos outros.
Faço minhas as palavras de todos os que escreveram antes de mim e escreverão depois de mim: Obrigada aos médicos, enfermeiros, auxiliares de acção médica, bombeiros, paramédicos, polícias, guardas da GNR, soldados, militares, camionistas, transportadores, estivadores, técnicos de HelpDesk e tantos tantos tantos outros que neste momento estão lá para nós podermos estar aqui. Entendam. Levem a sério. Oiçam o que vos dizem. Percebam que não é só uma gripe, que não há possibilidade de imunidade de grupo arriscando a vida a 250 000 pessoas. Agora é a sério.
Sejam bons, solidários, amigos. Tragam de volta o que o ser humano tem de melhor – o amor. Depende de todos nós a poupança de bens nos supermercados e farmácias, para que haja para todos.
SEJAM BONS. A bondade não tira pedaço. E dá, de cada vez, muitíssimo mais do que um rolo de papel higiénico.
Estamos e seguimos juntos. No mundo inteiro.


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Inarticulado, afásico, silencioso.


Há tristezas na nossa vida que simplesmente não têm dimensão palpável. Não são compreendidas por quem as vive. Não são compreendidas por quem vê quem as vive. Não são entendíveis, não são mensuráveis, não são nada senão tristezas. Não têm cura, não têm solução.
Ao longo das nossas vidas, vamos perdendo amigos, pais, tios, irmãos... cada dor, única; cada sensação, incrível. Cada rasgo no coração, uma cicatriz. Mas a dor de perda está sempre presente. As cicatrizes que ficam vão melhorando com o tempo que é tão relativo quanto a dor que se sente na perda.
Ao longo desta semana rezei intensivamente para que, na sua infinitude, Deus pudesse fazer acontecer O milagre. O milagre não aconteceu.
Perder alguém é uma merda. É uma merda quando foi um acidente de carro. É uma merda quando foi um cancro. É uma merda quando é de repente. É uma merda quando foi prolongado.
Não consigo classificar a dor de perda de outra forma.
Somos todos uns bichos com feitios e discussões, cenas maradas da vida que nos impedem de pedir desculpa mais vezes, de ser mais decentes uns com os outros.
Mas cruamente, a dor que sinto enquanto mãe por outra mãe, pela perda inacreditável - na sua acessão mais verdadeira – é impensável.
E enquanto penso em tudo isto, não consigo senão pensar que há horas em que coisas acontecem e nós, meros seres como outros, não podemos impedir.
Pela minha parte, só posso agora rezar para que Deus possa ajudar esta família, que sempre senti como minha – ainda que afastada – a lidar com esta dor, com este sofrimento. E que nos amemos muito mais uns aos outros, para que nestes momentos, possamos estar sempre presentes, fisica e psicologicamente. Queridos VC e K, seguimos juntos.

domingo, 28 de outubro de 2018

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Eu nasci em Lisboa. Em 1985, no Hospital Particular. Vivi na Avenida Infante Santo até aos meus 5 anos, quando os pais se mudaram connosco para Campo de Ourique. Com todos os sacrificios que acresceram aos meus pais por comprar uma casa. Por nós andarmos em bons colégios. Por andarmos com fardas, boas roupas, bons sapatos. Não era snobeira, era vontade de dar melhor aos filhos. Quando os pais se separaram voltàmos à Infante Santo. Quando comecei a namorar e quis ir viver com o R, escolhemos São Bento. O país estava em crise, os trabalhos estavam em crise, estava tudo em crise. Ainda assim, com 20 e poucos anos, podiamos viver em Lisboa. Depois tivemos o R e fomos para Sta Isabel e depois tivemos o F. Depois mudamo-nos para Alcantara. Ao fim de 32 anos - e 11 meses - vivi a minha vida INTEIRA na cidade de Lisboa. Betinha, tia, mas também sobrinha das tias, criada num colégio bom, num liceu melhor ainda, mas SEMPRE em Lisboa.
Não me fui embora quando os meus amigos foram, não me fui embora quando o trabalho se tornou mais do mesmo, não me fui embora quando ao fim de 2, 3, 4, 5, 6.... anos o meu salário não foi aumentado, nem o do R, a trabalhar na mesma empresa. Não mudei de trabalho porque me ensinaram que a qualidade e conhecimento não devem ser postos de lado, mesmo que isso signifique um pouco mais de esforço pela nossa parte.
Não fugi à procura de melhor. Fui mariquinhas - ou consciente das dificuldades de me afastar da minha familia - e por isso fiquei em Lisboa. Entrei oficialmente no mercado de trabalho no ano em que Portugal entrou em crise e senti-me forçada a trabalhar num CC para make ends meet, com a esperança de sair ou subir e passar eventualmente a ser mais bem remunerada. Nunca mudei de projecto por achar que ser capacitada a 100% num assunto era melhor do que ser a 20% em vários... A carga de trabalho mudou e aumentou. O local de trabalho mudou em 2012 da Infante Santo para o Parque das Nações. Em 2015, do Parque das Nações para Entrecampos. A remuneração salarial manteve-se igual, desde 2010.
A experiência que foi adquirida parece muita, mas não. Aprendi muito, com toda a certeza. Mas para as empresas contratantes, eu só sei falar ao telefone. Não é muito relevante.
Ao fim de 32 anos da minha vida, nesta cidade que me viu nascer, crescer, estudar, casar, os meus filhos nascer... Vou-me embora de Lisboa.
Estou a ser expulsa da minha casa. A renda da casa onde vivo vai ser aumentada dos 570€ para 800€ - "porque já há casas aqui na rua a cobrarem 1000€, vocês percebem". Não me entendam mal, os meus senhorios são impecáveis. A verdade é que tenho neste momento 8 anos e meio de empresa, no mesmo projecto e ganho pouco acima dos 600€. Passei este último ano à procura de casa. Vou sair de Lisboa porque tenho dois filhos, e não há casa em Lisboa onde possa viver com eles, com condições. Com espaço. Com ar livre para brincarem, onde possam andar de bicicleta.
Estou ZANGADA com todos os governantes deste país. ZANGADA. Ninguém põe cobro ao assalto diário que são as rendas na NOSSA CIDADE. O ordenado minimo no nosso país é mísero e as rendas estão TODAS ACIMA DOS 800€. Não ganhamos para um telhado.
Venderam e continuam a vender Lisboa às peças, a retalho. Não há quase lisboetas em Lisboa, não há. Há de tudo mas não há lisboetas.
Estou a ser forçada a sair da minha casa porque não sou considerada suficientemente relevante, nem o interesse maior dos meus filhos é relevante.
Relevante é estraçalhar a cidade em AL's legais e ilegais, alugar quartos ao mês pelo preço de uma casa e uma casa ao preço de um palácio.
Enquanto isso, assobiamos um bocadito a favor do arranjo do hospital de S.João no Porto, um bocadito pelos táxistas coitados que agora têm concorrentes e não gostam, assobiamos pela Mayorga e CR7, assobiamos pelos furacões ou contra eles, assobiamos contra os incendios, contra as cheias, contra o abuso que foi fotografar três individuos que espancavam e roubavam velhotes... Não assobiamos contra o roubo que são rendas, contra o roubo dos velhotes, contra a continua subida de impostos mascarada por orçamentos eleitoralistas, contra a retirada dos trafulhas da EDP, PT, GES/BES, BPN, BPP, etc... contra esses só silencio...
Continuemos pois, qual rebanho louco a assobiar para o lado, enquanto nos levam o couro e o cabelo... e enquanto NOS expulsam das nossas cidades.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

"Samba da benção"

No dia 16 de Maio caí na minha hora de almoço.
Tropecei  - nem sei onde - aterrei no sitio onde todo o humano aterra, os seus joelhos. Aterrei nos dois, torci um dedo do pé, bati com a mão direita no chão. Tinha ido comprar cigarros, acabadinhos de ser arrumados na caixa de metal que tenho para eles. Aterrei em cima da caixa. Sobreviveu com amachucos, menos que eu. 
Armada em forte, levantei-me a correr, com dores lancinantes nos joelhos, a coxear - pintada de roxo, cheia de vergonha. Mexi-me o mais depressa possível para o meu lugar onde o choque me apanhou na curva da onda e comecei a desmaiar de dor. Com alguma dificuldade, sobrevivi o restante desse dia. Fui buscar os miudos e o Pai, viemos para casa. Fiz o jantar, lavei a loiça, dei banhos. No dia seguinte, com dores excruciantes, fui trabalhar. Pela hora de almoço, já não tinha posição, nem sentada, nem de pé, nem nada. Fui ao Hospital onde estive 6 horas. Fiz cerca de 10 rx's às variadíssimas zonas magoadas. 
Há momentos na vida em que amaldiçoamos as origens, as heranças que nos foram deixadas, o que sai geneticamente em nós, sem qualquer responsabilidade dos nossos pais e avós. Mas culpamo-los meio na brincadeira, como se eles podessem ter feito alguma coisa no seu momento para que não tivéssemos herdado aquele "achaque". Pois bem, graças às maravilhas da genética, eu herdei alergias, asma e, entre outras coisas - como um cabelo forte e ondulado e uns grandes olhos pestanudos e castanhos - a hiperlaxidão das articulações. Sou elástica, flexivel, viro as pernas quase ao contrário, tenho más posições em todas as posições e parece que é isso. Mas não é só isso. A caca desta super-hiper-mega condição é que permite aos meus ossos fazer cenas maradas como estenderem-se mais do que podem e levando com eles ao seu extremo, as minhas articulações, os meus tendões, os meus ligamentos. Por causa desta cena fixe, a minha rótula já tinha por hábito, passear-se com alguma liberdade, no meu joelho. Por causa desta cena fixe, a minha queda foi menos aparatosa do que foi grave. Ou seja, entre as inúmeras luxações e sub-luxações dos ligamentos anteriores, posteriores, cruzados e não cruzados, as microfissuras e as finas laminas de liquído, o meu joelho é de acordo com o Dr .João, um molho de brócolos. Brócolos cozidos, em papa, mal cheirosos. 
Uma queda que foi simples, resultou tão somente, num joelho inchado, toranja-sized, numa perda de massa muscular - visível ao fim de três semanas - num par de canadianas que são as minhas outras pernas, pelo menos por agora. Resultou em 8 semanas de baixa - and counting - resultou em não poder conduzir praticamente nada, em não conseguir dormir porque não tenho posição, em não conseguir fazer quase nada sem ajuda. Fico cansada só de andar dez minutos de canadianas, está um calor de ananazes e soube a semana passada que ir à praia vai ser dificil este ano, porque a areia é irregular e por isso dificulta a estabilidade do joelho, e consequentemente, da perna. Resultou em 30 sessões de fisio e hidroterapia, que ainda mal vão a meio, choques e contracções musculares.
No fim disto tudo, sou uma pessoa com muita sorte. Há situações na vida que só servem para nos arrumar. Esta terá sido uma delas. Há um rapaz na fisioterapia comigo, que, com apenas 18 anos, teve um acidente de mota. Ficou tetraplégico, faz fisioterapia há mais de 10 anos. Nunca se casou, não teve filhos. A mãe dele vai e vem todos os dias de bem longe para o levar à fisio. Ele e a mãe não têm uma vida normal há mais de 20 anos. Há um outro senhor que não tem uma perna. É avô e pai, vai à fisio todos os dias com a mulher. Há mais de 20 anos que não tem uma vida normal. Há centenas de pessoas que não têm uma vida normal há mais de 20 anos. Há outras centenas que nunca tiveram. A minha experiência é que nós, os afortunados, nos esquecemos depressa (ou não nos lembramos tampouco) que a vida deve ser vivida. Com pernas ou sem elas, com braços ou sem eles. Nós, que temos ou tivemos acidentes que nos deixaram mazelas, não podemos nem devemos nunca esquecer a sorte dentro do azar. Haverá sempre quem sofre mais. Agradeçamos pois, a quem devemos agradecer pelas sortes da vida, que são tão simples e tantas vezes tomadas como garantidas. Nas palavras de Vinicius de Moraes "A vida é p'ra valer; E não se engane não, tem uma só".
Love, live, forgive, repeat. Assim. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

Não vou estar cá para sempre - nem eu nem a minha Mãe


Se soubessem quantas vezes penso em desligar tudo. Se soubessem quantas vezes acordo a meio da noite e me apetece pegar no carro e conduzir sem destino.
Quantas vezes vos imploro por silêncio para poder dar lugar ao meu barulho interior. Quantas vezes vos dou a mais para ficar com menos, mesmo quando me apetece ficar com mais. Quantas vezes me apetece deixar-vos nos vossos destinos e voltar para casa, só pelo silêncio. Quantas vezes o barulho é demais para depois o silêncio ser demais também.
Quantas vezes, numa mesa de jantar, repito as mesmas frases, umas atrás das outras, na tentativa de me fazer entender, para no dia seguinte recomeçar. Quantas vezes faço o que não me apetece para vos fazer felizes. Quantas vezes cedo para não me zangar. Quantas vezes me sinto sem apoio, sem nó, sem dó, sem norte. Quantas vezes começo isto, depois passo para aquilo, depois volto ao isto e quando acabo o aquilo, ficaram os outros pelo caminho que ainda faltou acabar ou até começar. Quantos dias passam até me lembrar que preciso de pôr creme nas mãos, ou de limar as unhas ou de ir cortar o cabelo. Quantas vezes ando com papos nos olhos, semanas a fio, até os mais honestos (ou antipáticos!) me dizerem – devias tapar essas olheiras. Quantas vezes me vejo acabada de acordar e só volto a ver-me – com olhos de ver – no retrovisor do carro antes de vir trabalhar. Quantas vezes me apetece mandar-vos para um sítio distante – ou mandar-me a mim e deixar-vos cá. Quantas vezes são as vezes que as Mães, mesmo mães – não aquelas só de título – se querem mandar para longe? Quantas vezes os 10 minutos que sobram no carro a caminho do trabalho são, na vida de uma Mãe, o único tempo que tem consigo e só para si? Quantas vezes me apetece levantar-me às 5 da manhã de sábado, só para poder sentar-me no pátio a tomar o pequeno-almoço e ler um livro sem cereais nem barrinhas e “não quero mais leite” e “podemos ver desenhos animados?”.
Provavelmente não acontecia nada se vocês soubessem. Porque as Mães (sentem todas a necessidade de provar aos outros que) são capazes de tudo, sozinhas. Nós contra o Mundo, nós contra tudo. Nós contra tudo muitas vezes resulta também em nós contra nós próprias, dado que a exigência da vida nem sempre permite espaço para nós. Quando mais de 80% do nosso dia somos a Mãe na voz deles, na das professoras, das educadoras, das senhoras e dos senhores das entradas das escolas, na dos médicos, nas vozes do trabalho (em que somos a Sra. Dra. ou um qualquer outro título,) ou temos um nickname, e sem saber como, a identidade Francisca, Maria, Joana ou Henriqueta, perde-se algures no tempo. Perde-se nas reuniões de pais, nas festas de anos, nas loucuras dos dias - que são já anos.
Não é culpa de ninguém em particular, mas de todos, no geral. Somos produtos da sociedade que nos torna unipessoais em sociedades familiares, de comunhão e partilha. Quantas vezes há muitas mais Mães, em situações em que o seu nome é a menor das suas preocupações. Quantas vezes o que interessam são eles, sempre eles e - SÓ - eles.
As Mães e os Pais precisam de mais espaço para existir e co-existir, sob pena de um dia não  conseguirem encontrar a sua própria identidade; aquela de antes dos filhos, de antes dos cabelos brancos, de antes das mãos secas, de antes da pele cansada, de antes dos papos debaixo dos olhos. Arranjemos tempo para que tudo seja possível, passo-a-passo, sem stresses nem exaustões de parte a parte. Façamos um verdadeiro esforço para que nós, Mães, forças da Natureza constante e inconstante, estejamos sempre no nosso melhor – para que o nosso melhor possa ser o melhor para os outros – Aqueles outros todos que, one way or another, precisam e dependem de nós, com ou sem papos nos olhos.
Fiquem pois a saber, que com ar olheirento, estoiradas, rotas de cansaço, sujas de bolachas secas semi-mastigadas no ombro esquerdo, com cabelos brancos e pele por maquilhar, as Mães serão sempre a força constante que vos leva. E quando chegar a Vossa vez, lembrem-se sempre do esforço que viram ser feito, para que vocês pudessem ter tudo (tudo o que era alcançável – e inalcançável). E pensem também no que viram e percebam o amor de uma Mãe – e os sacríficios que desse amor advêm. E agradeçam-lhes, porque a(s) Mãe(s) não está(ão) cá para sempre.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A arte de se ser intolerável


As coisas que dizes e fazes afectam a vida das outras pessoas. As palavras têm impacto na vida dos outros. As atitudes também. A força, ou falta dela, dos outros não deve NUNCA ser razão para te aproveitares e subires. 
Não passes por cima dos outros. Não sejas assim. As pessoas assim podem ter lugares importantes e até amigos mas não são felizes. Chutam antipatias e deseducações contra os outros, numa esperança de se sentirem melhor consigo próprios, de se sentirem fantásticos, mas no fundo, são apenas sanguessugas. 
Pond scum. Têm naturalmente mau carácter, má índole e a mania. A mania que sabem tudo, a mania que conhecem tudo, que já experienciaram tudo e por isso a mania que têm um dom que nós, comuns mortais, não temos. Ser mal educado não é um asset. Ser mal educado e mal formado é ser podre. E pobre de espírito. Não sejas assim. Que bom teres mau feitio. Que bom. Ganhas imenso com isso. Já conheci várias dezenas de pessoas com mau feitio. Mas ter mau feitio é demonstrativo de personalidade e de carácter. Ser deseducado e mal formado não. É de baixo nível. E só demonstra que não prestas. As pessoas que não prestam normalmente ficam sozinhas. Até porque honestamente, quem é que quer ter como amigo ou companhia uma pessoa de má índole? Ninguém. E ser imprestável fica(-te) mal. 
Quando BP disse: “Deixa sempre o Mundo um pouco melhor do que o encontraste”, era também a isto que ele se referia. Se fizeres um bocadinho pelos outros todos os dias, estás todos os dias a demonstrar que vales a pena. Que vale a pena seres um ser humano, que vales o ar que respiras. Mas, se ao contrário, só vives bem a cuspir nos outros, não só não trazes nada de inovador ao Mundo, como estás a torná-lo pior. Ser bully na infância é mau, mas a uma criança é possível explicar porque é que não o deve ser e as consequências de o ser. Mas, se ao contrário, és adulto e continuas um bully, é porque não só não prestas, como não mereces a consideração que eventualmente alguém ainda possa ter por ti. Seres intolerável não faz de ti uma pessoa interessante, faz de ti imprestável. E, mais uma vez, o que não presta deve ser deitado fora, sob pena de apodrecer o que está ao ser redor.
Se não és sequer capaz de pensar que aquilo que dizes pode e afecta a vida e os sentimentos dos outros é porque não devias viver em sociedade. Se te comportas como um bicho, deves viver com(o) eles. Os outros seres humanos do Mundo não deviam (ter de) estar expostos a ti, ao teu veneno e à tua crueldade.
O facto de achares que o que dizes não tem mal demonstra bem o que pensas dos e nos outros, ou seja, NADA. A tua pequena cabecinha não concebe que os outros, esses de estirpe baixa, intocáveis e reles seres humanos com quem tu tens o aborrecimento de partilhar o planeta, não têm sentimentos nem são dignos de, ainda que temporariamente, fazer parte dos teus mais infímos pensamentos. No fundo, o que interessa és tu. O teu umbigo também, claro.
Valha-nos o facto de, por ora, sermos a maioria. E claro, de a tua existência não ser coisa de interesse público.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Motherhood

Se houve coisa que aprendi depressa quando fui mãe, foi que os filhos ficam doentes. Eles ficam doentes quando há coisas programadas e quando não há. Ficam doentes à vez ou ao mesmo tempo. Quando nós chegamos a casa depois de um dia louco no trabalho. Quando acabámos de acordar e até quando acabámos de nos deitar. Quando estamos estoirados e quando estamos descansados. Às vezes fica o mais velho, outras vezes o mais novo. Outras vezes os dois, sem razão aparente. Já tinha acontecido ficar primeiro um e depois o outro, combalidos da mesma doença. Desta vez ficaram ao mesmo tempo, cada um com sua coisa, apesar de a razão que nos levava ao médico ser por acharmos que era a mesma coisa. Turns out, que ficar doente a meias não era tão fixe. Partilhar doenças não é fixe, ter uma coisa cada um é que é. Um com bronquiolite outro com uma cena de pele tão marada que não vou mencionar o nome – para que as queridas almas curiosas não procurem porque é feio e assusta. A verdade é que se assemelha demais com a varicela e ainda hoje, depois de quase 15 dias do diagnóstico, ele está cheio de marquinhas cor de rosa, o meu dálmata. Foi assim que passei quase duas semanas em casa, com os meus dois princípes, e foi, de longe, o melhor tempo que tive com eles desde há imenso tempo. Fomos só nós os 3, a mãe toda só para eles, eles todos só para mim. Vimos quase todos os filmes da Disney, comemos torradas a meio da manhã, estivemos de pijama até à hora de almoço. Fizemos scones e bolo de chocolate e comemos algumas porcarias. Dormimos sestas e brincámos com Legos. E com Playmobil. E carrinhos e motas e helicópteros. E foi mesmo mesmo bom. E de repente, fui invadida pela sensação terrível do fim da licença da maternidade, em que temos de lidar com a perda dos nossos filhos que até essa altura são só nossos para passar a partilhar os filhos com o Mundo. Não me entendam mal, acho que os filhos devem ser fazer parte do Mundo. Mas é bom, de quando em vez, os filhos voltarem a nós, nestes momentos, em que estamos frágeis – eles pela doença, nós pela preocupação. Foi bom poder passar os dias a dar mimos que não consigo sempre dar, a dizer-lhes que são a melhor coisa da minha vida, das nossas vidas, e que sem eles não faria o sentido que faz com eles. Acabamos a querer mais tempo de qualidade com eles, em que a vida pára só para nós, até à hora de ir jantar e maternizar mais um bocadinho. Desta vez, mimei-os tanto que acho que estraguei qualquer coisa. Mas não faz mal, porque estou cá para arranjar. Se não podemos mimá-los, quando estão doentes agora quando é que podemos? Gostava que se lembrassem que quando estavam doentes, viam filmes da Disney e podiam ficar de pijama até tarde, sem ralhetes nem zangas. Foi bom soltar-me do meu papel de mãe exigente e deixar a mãe mimosa entrar. Ela está sempre presente mas não tem sempre tempo. E a exigência da vida lá fora puxa muito pela mãe e pelo pai, por isso, desta vez, a exigência ficou na rua. Não houve horários, não hove corridas, houve só amor. E os filhos souberam bem aproveitar a deixa e partilhar mimos entre eles e comigo. Partilhámos o sofá, o colo da mãe, os scones e o bolo de chocolate, a máquina de aerossois e a(s) mão(s) - com mano mais novo, que chorava pelo ardor do Betadine nas pintinhas.
Passei tempo de verdadeira qualidade com eles e concluo, mais uma vez, que o papel que têm na minha vida e a sua presença na minha vida são o melhor do Mundo. É com eles que quero sempre passar o resto da minha vida e ser a melhor do Mundo para eles.
Os meus princípes estão de volta às respectivas escolas e eu de volta ao trabalho. E dou por mim a desejar mais dias em casa com eles, mais tempo e mais vida com eles.
A lição que fica: gozar melhor os fins-de-semana e as férias e o tempo que temos juntos.


Motherhood has taught me the meaning of living in the moment and being at peace. Children don't think about yesterday, and they don't think about tomorrow. They just exist in the moment.” - Jessalyn Gilsig

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Noo, you left me in a hiatus

Numa rajada de vento, foste. Saíste com a esperança no coração e uma vontade enorme de continuar a luta. E depois a luta acabou, de um momento para o outro. Inspiraste e expiraste e pronto. Acabou. Chorámos todos a tua perda. Abraçámos-te sempre. Mas a luta acabou e tu foste-te embora. E a tua perda passou a ser a nossa perda também. A tua luta acabou por ser a nossa, em dois anos e uns trocos, chorámos e rimos, rezámos e implorámos para que a tua luta fosse frutífera. Mas não foi. A tua luta acabou. E com ela parece ter ido uma parte tão importante de mim. Conscientemente, não fazia sentido que no fim, a tua permanência acontecesse. Mas a tua ida fez um buraco em mim. Estou constantemente à espera que apareças aqui ao meu lado e que me faças rir como fizeste nestes dois anos. Egoisticamente, fazes-me falta. Tenho saudades tuas. Não queria que tivesses ido. Não queria que te fosses embora, minha querida amiga. Foste, em quase oito anos de trabalho, uma das poucas amigas que fiz. Podia contar-te tudo e cortar na casaca de quem quisesse e tu não te importavas e rias-te. Às vezes concordavas, outras vezes não. Agora vou ter de esperar que este horror que te aconteceu melhore, ainda que ligeiramente, só para poder dizer-te disparates outra vez. Não foi a mim que me aconteceu mas continuo a sentir que deixas um gap maior que os outros antes de ti. Lembro-me de quando te conheci e achei que eras entitled e como em 5 minutos mudei de opinião. Não te devia ter acontecido isto. Não a ti, não a vocês. Não é justo que o caminho tenha tido de ser este. Quando o choque me passar, acho que vou finalmente começar a perceber o que se passou.
Só gostava de ter tido oportunidade de vos salvar aos dois deste desgosto, desta tristeza. Gostava que tivesse sido up to me ajudar. E arruinou – ainda que temporariamente – a minha vontade de trabalhar e de estar. Não é justo que tenhas perdido o amor da tua vida, que tenhas lutado tanto – e ele! – para no fim a batalha ter sido perdida. Nunca pensei, nem sequer ponderei que este pudesse ser o desfecho. Como em tantas outras situações, a vida dá-nos uns pontapés valentes, para andarmos para a frente, para nos mexermos da nossa posição de conforto mas irra, era mesmo preciso esta lição? Não era.
Falei contigo no outro dia e fez-me tão bem. Fez-me tão bem à cabeça saber que apesar de tudo estás bem e cheia de conforto. Acho que te fez bem a ti também. Gosto que me consideres tua amiga, para mim isso é uma honra. A tua amizade fez-me sempre bem. Nunca fiquei zangada contigo nem tu comigo. Nunca me ofendeste e - acho que - nunca te ofendi. Vais estar sempre no meu coração. Sempre. Disseste-me isso no dia em que te foste embora e agora que já passaram mais uns dias, cada vez mais sei que tu vais estar sempre no meu coração. Que a tua passagem pela minha vida também serviu o propósito de me pôr os pés no chão outra vez.
O que eu espero para ti, minha querida amiga, é que no futuro só haja alegrias e coisas boas. Se souberes o quanto gosto de ti saberás o quão importante és para mim. Estou aqui. Estive sempre aqui. E estarei sempre, sempre, sempre que precisares.
Adoro-Te minha amiga. Minha querida e importante amiga.

Até sempre, Noo. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

"Mas sempre, p'ra sempre, vou gostar de ti"

Ando há uns dias a ponderar se escrevo ou não escrevo sobre este assunto. Sei que há um milhar de pessoas que já escreveram sobre isto e, muito provavelmente, com mais insight que eu.

Sou fã incondicional dos Xutos e Pontapés há muitos anos. Muitos. Quase tantos quanto os que tenho de vida. Comprei alguns discos, mas não todos. Eu sou mais pelos concertos. As memórias têm em mim um fortíssimo impacto que é irrepetível – mesmo quando os discos são dos concertos. Os Xutos fizeram parte da minha vida de adolescente tanto quanto alguns dos meus amigos mais próximos. Os meus amigos sabem o quanto gosto de música, o quanto gosto de música portuguesa, o quanto gosto de Xutos. Paguei mais do que uma vez 50€ para ir ver os Xutos no RiR enquanto a maior parte dos meus amigos me gozava e dizia: “se só vais ver os Xutos, porque não vais aos concertos de graça, que eles fazem aos montes?” Porque não é igual.
Ver os Xutos no concerto dos 25 anos, no – formerly known as - Pavilhão Atlântico foi um dos prazeres máximos da minha juventude e será, até eu morrer, uma memória indescritível. Estive horas antes do concerto nas barreiras do palco, pura e simplesmente porque queria fazer parte da cena. TODA A CENA. O palco, num X genialmente concebido. O Zé Pedro estava – que sorte a minha – mesmo ali, do nosso lado. Não me esqueço. Nunca me esqueci. Dos seus olhares na nossa direcção, das palhetas a voarem das mãos dele para serem engolidas por um mar de pessoas à minha volta.
Tenho – confesso-me! – uma paixão doida pelo Zé Pedro, qual adolescente, desde que sou fã dos Xutos. Agora até pode parecer que só digo isto porque ele morreu. Mas não. A minha amiga Marta, que teve a sorte invejável de conhecer o Zé Pedro no RiR, pediu-lhe um autógrafo para mim. Eu, que nunca tive autógrafos de ninguém, tenho um do meu artista preferido numa banda. Os Xutos são história de Portugal, são história da música portuguesa – mas não só. São parte da vida de pelo menos três gerações que cresceram a ouvi-los, a admirá-los e a achar, tal como eu, que no caso deles, eles são uma espécie de nossos amigos.
Na faculdade tive o prazer de conhecer e me tornar grande amiga da Luísa. Ela conhece os Xutos. Todos. Incluindo o Zé Pedro. Há muitos anos. No dia 30, quando lhe mandei uma mensagem a transmitir a minha tristeza, a Luísa respondeu-me que eu tinha sido a primeira pessoa de que se lembrou quando soube da notícia. A minha amiga Diana também. Ambas sabem, como o resto do nosso gang, da minha paixão infantil pelo Zé Pedro.
O Zé Pedro morreu, depois de montes de problemas de saúde, de lutas incessantes contra os vícios – que venceu.
O Zé Pedro morreu no dia em que o meu filho mais velho fez 8 anos. É óbvio que o dia não mudou, nem eu mudei, nada mudou. Mas o Zé Pedro, a minha paixão de adolescente, morreu. E no dia seguinte quando acordei, chorei, só um bocadinho, só para mim. Pelos Xutos, porque perderam alguém tão infinitamente importante para eles, pelos meus amigos, como a Lu e o Sebastião, que estão tão proximos quanto se pode estar, por todos aqueles que como eu, viram e vêem nos Xutos uma banda com o verdadeiro sangue Português. O sangue que resistiu a todas as invasões estrangeiras, o sangue de mil mares navegados, o sangue da saudade. O sangue do Homem do Leme. O Sangue de quem não foi o único a olhar o céu, a navegar o mar, a saber ir e a saber voltar. De quem sabe como a droga impacta o crescimento e a visão da vida, de quem lutou para crescer num mundo cão que é o de se ser famoso, de ser escrutinado pelas redes sociais, pelas revistas pink e por tudo o resto. No fim, os Xutos progrediram, saíram do seu lugar de conforto e fizeram nascer uma banda que TODOS conhecem. Uma banda de quem toda a gente em Portugal conhece pelo menos uma música. Uma banda que é tão multi-facetada que canta com os Resistência, com o Jorge Palma, cujo vocalista canta a solo, cujos membros cantam em parte ou em conjunto com mais um sem número de artistas portugueses. Serei sempre fã incondicional de música - e dos Xutos. Sempre.
Vou ter sempre saudades do Zé Pedro. Mesmo sem o ter conhecido. Porque como os outros artistas respeitáveis, não teve vergonha de se assumir humano, defeituoso, falível. Assumiu os erros que fez, lutou contra as consequências desses erros. Pagou esses erros e não ficou a dever nada – talvez e apenas, mais música. O Rock ‘n Roll perdeu um ramo português. Incontornável.
Aos Xutos, se lhes pudesse dizer qualquer coisa, dizia que sinto profundamente a perda inegável deles. E que sinto, muito muito muito a tristeza deles.
Agora, que já não posso dizer nada ao Zé Pedro, gostava de ter tido coragem para no dia em que parou ao lado do meu carro na rua Braamcamp, em Lisboa, saltar do carro e dizer-lhe que era - e sou - a sua maior fã! Ao invés, fiquei louca, comecei, qual pita histérica, aos saltos no carro. Parva.
Aos Xutos e Pontapés, no geral e ao Zé Pedro, em particular, obrigada. Obrigada pela vossa dedicação. Pelo vosso amor à música. E por não terem acabado a banda. Obrigada.
Vivam os Xutos. Sempre.

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