Hoje vivi o meu primeiro dia em
isolamento voluntário.
Desde quinta-feira que tenho um
marido a trabalhar em casa. E desde quinta-feira que tenho dois filhos a
esforçarem-se com algum cuidado – mas não muito – para não darem cabo da cabeça
a ninguém. Ontem trabalhei na empresa, como segunda e terça. A equipa foi
partindo, parte na semana passada, outros esta semana. Ontem saí do trabalho
como entrei. Com angústia, a pensar, como estou certa, quase todos nós estávamos,
no dia em que voltamos a ver-nos e a juntar-nos. Ainda há uns dias estávamos a
almoçar juntos nos hambúrgueres e agora nem sequer podemos abraçar-nos,
cumprimentarmo-nos. A coisa mais portuguesa, essa de dar beijinhos e abraços. E agora?
Daqui a quanto tempo posso eu dar
um abraço apertado à minha amiga Marta, auxiliar de acção médica no IPO?
Dizer-lhe que é maravilhosa, que estamos cheios de fé que todos juntos
ultrapassaremos mais este bicho, já lho disse mais que uma vez. Que o que ela
faz me enche de orgulho e que tantas vezes penso nela porque ela está com
pessoas doentes todos os dias, cheias de tristeza e porque ela os ajuda, no fim
e no principio da doença, com tudo o que pode e sabe fazer.
Daqui a quanto tempo posso eu
abraçar e dar beijinhos à minha tão querida tia e madrinha Rita, que é
enfermeira há tanto tempo? Dizer-lhe o quão fantástica ela é, todas as vezes
que vem em auxílio, das filhas e netos, dos sobrinhos e dos sobrinhos-netos,
dos irmãos, das cunhadas, da nossa Avó?
Daqui a quanto tempo posso eu
abraçar a minha Avó Elisa, GRANDE, ENORME E MARAVILHOSA que é? Quando poderei
eu vê-la outra vez, sem a pôr em risco, porque fez 92 anos na terça, porque tem
asma, porque está tão bem quanto está cansada? Essa mesma avó, que foi directora
da farmácia no IPO de Lisboa, durante mais anos do que os que eu tenho de vida –
e já tenho 34!
Quando poderei eu convidar o meu
gang, os meus amigos de sempre e para sempre, para uma jantarada, celebrar o
que de mais importante há na vida, os meus amigos? Abraçá-los, enchê-los de
amor e comida caseira e doces e mimos?
Quando é que vou poder ver os
meus sogros, em fase complicadissima da vida, abraçá-los e beijá-los? Dizer-lhes
que estamos aqui, ou lá, ou onde fôr preciso?
Vivo há uns dias no mesmo
sentimento. Estou num limbo entre: “isto nem parece verdade, estamos num filme”
e “eu não vou aguentar o que isto vai provocar”. Acordo com a sensação de que
nada aconteceu. Depois acordo e sei que é. E depois lembro-me que é mais
um dia em que vamos seguir em frente, continuar a rezar por todos os que estão
comigo e os que estão longe de mim, exactamente pelas mesmas razões. Porque de
todas as coisas desesperadamente tristes e que me deixam no chão, as que foram
antes de eu nascer e as que foram ainda agora, eu nunca senti isto. É intenso, deixa-me perturbada.
Mas mantemo-nos firmes. Seguimos
juntos. Seguiremos juntos sempre. Deixou de haver cores, partidos, lados,
fronteiras psicológicas. Deixou de haver batalhas campais por coisas de
diminuta importância. Estamos sempre juntos, no momento em que mais precisamos
uns dos outros.
Faço minhas as palavras de todos
os que escreveram antes de mim e escreverão depois de mim: Obrigada aos
médicos, enfermeiros, auxiliares de acção médica, bombeiros, paramédicos,
polícias, guardas da GNR, soldados, militares, camionistas, transportadores,
estivadores, técnicos de HelpDesk e tantos tantos tantos outros que neste
momento estão lá para nós podermos estar aqui. Entendam. Levem a sério. Oiçam o
que vos dizem. Percebam que não é só uma gripe, que não há possibilidade de
imunidade de grupo arriscando a vida a 250 000 pessoas. Agora é a sério.
Sejam bons, solidários, amigos. Tragam
de volta o que o ser humano tem de melhor – o amor. Depende de todos nós a
poupança de bens nos supermercados e farmácias, para que haja para todos.
SEJAM BONS. A bondade não tira
pedaço. E dá, de cada vez, muitíssimo mais do que um rolo de papel higiénico.
Estamos e seguimos juntos. No mundo
inteiro.
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