terça-feira, 23 de outubro de 2018

Eu nasci em Lisboa. Em 1985, no Hospital Particular. Vivi na Avenida Infante Santo até aos meus 5 anos, quando os pais se mudaram connosco para Campo de Ourique. Com todos os sacrificios que acresceram aos meus pais por comprar uma casa. Por nós andarmos em bons colégios. Por andarmos com fardas, boas roupas, bons sapatos. Não era snobeira, era vontade de dar melhor aos filhos. Quando os pais se separaram voltàmos à Infante Santo. Quando comecei a namorar e quis ir viver com o R, escolhemos São Bento. O país estava em crise, os trabalhos estavam em crise, estava tudo em crise. Ainda assim, com 20 e poucos anos, podiamos viver em Lisboa. Depois tivemos o R e fomos para Sta Isabel e depois tivemos o F. Depois mudamo-nos para Alcantara. Ao fim de 32 anos - e 11 meses - vivi a minha vida INTEIRA na cidade de Lisboa. Betinha, tia, mas também sobrinha das tias, criada num colégio bom, num liceu melhor ainda, mas SEMPRE em Lisboa.
Não me fui embora quando os meus amigos foram, não me fui embora quando o trabalho se tornou mais do mesmo, não me fui embora quando ao fim de 2, 3, 4, 5, 6.... anos o meu salário não foi aumentado, nem o do R, a trabalhar na mesma empresa. Não mudei de trabalho porque me ensinaram que a qualidade e conhecimento não devem ser postos de lado, mesmo que isso signifique um pouco mais de esforço pela nossa parte.
Não fugi à procura de melhor. Fui mariquinhas - ou consciente das dificuldades de me afastar da minha familia - e por isso fiquei em Lisboa. Entrei oficialmente no mercado de trabalho no ano em que Portugal entrou em crise e senti-me forçada a trabalhar num CC para make ends meet, com a esperança de sair ou subir e passar eventualmente a ser mais bem remunerada. Nunca mudei de projecto por achar que ser capacitada a 100% num assunto era melhor do que ser a 20% em vários... A carga de trabalho mudou e aumentou. O local de trabalho mudou em 2012 da Infante Santo para o Parque das Nações. Em 2015, do Parque das Nações para Entrecampos. A remuneração salarial manteve-se igual, desde 2010.
A experiência que foi adquirida parece muita, mas não. Aprendi muito, com toda a certeza. Mas para as empresas contratantes, eu só sei falar ao telefone. Não é muito relevante.
Ao fim de 32 anos da minha vida, nesta cidade que me viu nascer, crescer, estudar, casar, os meus filhos nascer... Vou-me embora de Lisboa.
Estou a ser expulsa da minha casa. A renda da casa onde vivo vai ser aumentada dos 570€ para 800€ - "porque já há casas aqui na rua a cobrarem 1000€, vocês percebem". Não me entendam mal, os meus senhorios são impecáveis. A verdade é que tenho neste momento 8 anos e meio de empresa, no mesmo projecto e ganho pouco acima dos 600€. Passei este último ano à procura de casa. Vou sair de Lisboa porque tenho dois filhos, e não há casa em Lisboa onde possa viver com eles, com condições. Com espaço. Com ar livre para brincarem, onde possam andar de bicicleta.
Estou ZANGADA com todos os governantes deste país. ZANGADA. Ninguém põe cobro ao assalto diário que são as rendas na NOSSA CIDADE. O ordenado minimo no nosso país é mísero e as rendas estão TODAS ACIMA DOS 800€. Não ganhamos para um telhado.
Venderam e continuam a vender Lisboa às peças, a retalho. Não há quase lisboetas em Lisboa, não há. Há de tudo mas não há lisboetas.
Estou a ser forçada a sair da minha casa porque não sou considerada suficientemente relevante, nem o interesse maior dos meus filhos é relevante.
Relevante é estraçalhar a cidade em AL's legais e ilegais, alugar quartos ao mês pelo preço de uma casa e uma casa ao preço de um palácio.
Enquanto isso, assobiamos um bocadito a favor do arranjo do hospital de S.João no Porto, um bocadito pelos táxistas coitados que agora têm concorrentes e não gostam, assobiamos pela Mayorga e CR7, assobiamos pelos furacões ou contra eles, assobiamos contra os incendios, contra as cheias, contra o abuso que foi fotografar três individuos que espancavam e roubavam velhotes... Não assobiamos contra o roubo que são rendas, contra o roubo dos velhotes, contra a continua subida de impostos mascarada por orçamentos eleitoralistas, contra a retirada dos trafulhas da EDP, PT, GES/BES, BPN, BPP, etc... contra esses só silencio...
Continuemos pois, qual rebanho louco a assobiar para o lado, enquanto nos levam o couro e o cabelo... e enquanto NOS expulsam das nossas cidades.

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