Há cerca de 4 anos passámos, em
família, uma situação que nos colocou numa nova perspectiva sobre a vida. Não
tem que ver com acreditar em Deus, nem tem que ver com achar que Deus não
estava presente naquele momento. Olhando para trás, tenho a certeza que estava.
Porque eu acredito que se Deus não estivesse presente, talvez as pessoas que
estavam a sofrer naquele momento já não estariam entre nós. Porque acredito que
Ele sabia que nós conseguiríamos em família ultrapassar aqueles obstáculos. Foi
um ano muito complicado para os quatro lá de casa e para outros que não vivem
debaixo do mesmo tecto mas sentem família em nós.
Este obstáculo foi complicado de
superar porque ter um filho internado será sempre difícil. Porque saber que não
há nada nas tuas mãos de Mãe que possa resolver aquele problema, acabar com a
dor e com o sofrimento dos teus. Porque eles são TEUS. Porque os puseste cá,
mas também porque os quiseste. Especialmente porque os quiseste. Passar situações
dificeis com filhos é quase assegurado, desde o dia em que eles chegam cá – e às
vezes até antes de estarem cá, fisicamente.
Mesmo hoje, vindos de mais um
exame de rotina, passaram 4 anos e 2 meses, e as pernas ainda me tremem, e duas
horas depois de saber que continua tudo bem, as mãos ainda me tremem. Ainda me
é dificil viver estes momentos em que estou sem ver, sem falar e sem ouvir o
meu F. Graças a Deus e a nós – atrevo-me a dizer – ele nunca mais teve nada,
nunca mais houve nenhum stress em
relação à saúde dele. É uma criança doida, desvairada, com muito feitio. Não é
mau feitio, é só feitio. Gosta do que gosta e não gosta do resto. É exigente
com a água que bebe, com a sopa que come, se tem coisas ou não tem coisas.
Exige dormir tapado até às orelhas, todos os dias, mesmo com 30 graus. Nunca tem
fome de manhã e por isso come mal que se farta ao pequeno-almoço. A diferença é
simples: se acordar às 6.50, come uma barrinha de cereais e meia caneca de
leite. Se acordar às 8.00, come duas ou três torradas, havendo,
come ovos mexidos, cereais, acho que até sopa comeria.
Adora o irmão acima de todos,
inclusivé os pais. Se tivesse de dizer, acho que ele daria a vida pelo irmão,
da mesma maneira que o irmão daria por ele. Andam às turras de vez em quando e
mesmo assim, são capazes de se abraçar em modo de desculpa até caírem de riso.
Não me lembro de alguma vez isso ter acontecido comigo e com o meu irmão. Para ser
honesta, acho que nunca vi dois irmãos como eles. O irmão é o maior exemplo de
amor que vejo nele.
Mas nós saímos do hospital, tivemos alta depois de um complicadíssimo
mês internados. Costumo dizer internados porque quando tens um filho com 4
meses internado, tu também estás internada. Tu, o teu coração, o teu marido, o
teu outro filho e o resto da tua família. Estivemos todos numa angústia, num
limbo de tristeza. No dia em que tivemos alta, 16 de Maio, fomos para casa e
ficámos à espera da hora de ir buscar o mano. E quando cheguei a casa com ele e
se voltaram a ver, foi como um desmoronar de sentimentos, de emoções, de
loucura de amor de tudo. Foi como se o Mundo pudesse começar a girar de novo. Foi
como se tudo estivesse bem, novamente. E de repente, todos os males se foram,
todos os horrores se foram... Éramos uma família outra vez. E o amor que nos
passou a unir foi todo muito maior e melhor. E a lição que vos posso passar é:
complicar menos. Sofrer menos por antecipação. E pôr sempre em perspectiva o
que nos acontece diariamente. Chegarão, espero eu, à mesma conclusão que
cheguei: raramente é tão grave quanto o fazemos na nossa cabeça. Ser feliz e
ter saúde é o que mais importa. A nós e aos nossos. O resto? O resto faz-se.
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