A filha que há em mim quer colo. A
filha que há em mim gostava de ter mais tempo com os pais, mais tempo de
qualidade. A filha que há em mim foi mimada e abraçada vezes suficientes, mas
gostava de ter tido mais mimo. A filha que há em mim gostava de poder ter um
dia inteiro com os pais. Como filha de pais divorciados, gostava também de
poder lembrar-me melhor da altura em que era filha de pais casados. Não que
isso fizesse algum sentido agora, porque não faz. Mas gostava de me lembrar
desses tempos. Gostava que as memórias mais vivas fossem de férias divertidas e
não de férias partilhadas. Gostava de ter visto menos cenas de egoísmo e mais cenas
de amor. Gostava que me tivessem dito para aproveitar mais tempo enquanto
criança – agora passo a vida a dizê-lo aos meus filhos.
Ser pequeno permite-nos uma série
de maravilhosas aventuras que deixam de ser possíveis e compatíveis com a vida
adulta.
- · Desenhos animados aos fins-de-semana a partir das 6.30
- · Férias em casa dos avós do lado do Pai, depois do lado da Mãe (ou vice-versa)
- · Praia quase todos os dias
- · Compras que os avós fazem só para nós como fiambre fininho, cereais de várias espécies, pão de forma de plástico e manteiga com sal
- · Idas à piscina da Praia das Maçãs, saltar das pranchas e comer gelados
- · Chegar a casa da praia às 20.30, tomar banho, jantar com a família toda e com bronzes invejáveis
- · Fazer corridas de bicicleta ou ir dar voltas à rua da Mesquita
- · Três meses de dolce fare niente, sem noção do que são contas para pagar ou livros da escola para comprar
- · Jantares de família no Búzio ou na Toca do Júlio, até às tantas, com tudo o que tínhamos direito (melão com presunto...hmmm)
- · Macaquices com os primos, como guerras de almofadas ou passeios na praia
A filha que há em mim lembra-se de
tudo isto e gostava de voltar. Como a filha que há em mim não pode voltar atrás
no tempo, a Mãe que há em mim faz tudo o que está no seu alcance para que, um
dia, os meus filhos possam ter as mesmas - ou outras – memórias de viver dias
intensos de amor, brincadeira e loucura - que também é precisa de vez em
quando.
Gostava que os meus filhos não
fossem constantemente postos a correr, desde as 6.30 às 20h. Gostava de não ter
de andar a correr com eles de um lado para o outro. A vida exige de nós
horários puxados e eles mereciam mais paz e mais calma. Por isso, quando chega
o fim-de-semana, gosto de passear com eles, de lhes tirar fotografias, de os
levar a sitios que ainda não visitámos e a sítios que devíamos ver outra vez. Sei
que se lhes perguntasse eles diriam que não se importam e que há muitas coisas
que fazemos juntos e portanto não faz mal acordar tão cedo durante a semana. Não
tenho a certeza mas adivinho que não tenham sequer muita noção das horas que
estão de pé. Inevitavelmente, os pais sentem-se mal por não poder passar mais
tempo com eles. A verdade é que eles estão – sempre – gratos por tudo o que
fazemos juntos e quando o sol se põe, eles amam-nos e nós a eles. Pelo menos,
até serem adolescentes.
Depois logo se vê!
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