quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Trinta de Novembro de Dois Mil e Nove

Foi num dia feliz que soube. Soube que eras tu. Que ias chegar e arrebatar-me. Que ias atacar todas as bases e estruturas. Soube que sabia. Chegaste e assim foi. Levantaste os meus pés do chão e puseste-me no ar. Chegaste pequeno e bonitão. Muito cabelo numa redonda cabeça, com um ar rechonchudo e cor-de-rosa. Eras comprido, mas não muito. Eras pesado, mas não muito. Não eras loiro como te tinha antevisto. Não tinhas os meus olhos nem o meu nariz. Não tinhas fome. E gemias imenso. Eras pequenino. Tão pequenino que na minha pequenez de 24 anos te enterravas nos meus braços. Parecia ser o único sitio onde te sentias bem. Não gostavas do colo de ninguém. A combinação perfeita era o colo da mãe e a voz do pai. Chegaste num dia que amanheceu chuvoso. Havia um arco-(da)-íris por cima do hospital. O Avô disse que devia ser bom sinal. Afinal estavas a chegar. Era segunda-feira, antevia-se um dia maravilhoso. Eras tão perfeitinho. Nunca tinha visto ou sentido um bébé daquela forma. Eras só nosso, só meu. Não queria partilhar-te com ninguém. Passámos uns dias no hospital. Eras fantástico. Puseram-te num tupperware, de óculos escuros, todo virado para cima, como um sapinho miniatura. Estavas a dar um ar da tua graça, nos teus banhos de vitamina B12, naquele tupperware. Levámos-te para casa. E eu, cantava-te todos os dias. Naquele tempo em que ainda éramos só nós, e tínhamos tempo só para ti. Cantava contigo pendurado no marsúpio, enquanto lavava a loiça toda debruçada. Arrumava a tua roupa enquanto namorávamos naquele tempo só nosso. Éramos só nós os três durante um bocadinho. Nesse bocadinho, íamos muitas vezes ao jardim da Estrela, como fizeram comigo e com o tio João, back in the day. Aproveitámos-te todos os dias. Eras tão pequenino. Cabias do meu antebraço ao meu pulso, todo enroladinho. Adormecias com a maior das facilidades. Eras sorridente. Tinhas os espirros mais fantásticos. Eras um Nenuco de bébé. Agarravas na chu e tiravas da boca. Depois choravas desalmado porque a chu estava na tua mão mas não eras capaz de a pôr onde a tinhas tirado. Eras tão pequenino. Sentava-te na cadeirinha de baloiço e dava ao pé. Dormias sestas de 4 horas. Comias à hora certa, dormias à hora certa. Dormias oito horas à noite desde as tuas duas semanas de vida. Foste sempre um bébé perfeitinho. Eras friorento. Tinhas mau génio e não gostavas de estar sozinho. Tirei um mestrado em skills de ninja contigo. Rebolava de cima da cama dos pais para o chão e depois para a lateral do berço, pelo chão. Assim que conseguia pôr-me de pé e fechar a porta, começavas a chorar. E eu, sozinha, voltava para trás e repetia o esquema. Um dia zanguei-me contigo e disse-te muito claramente “tens de dormir Kikas, a mãe está cansada. Tenho muito sono e precisamos os dois de dormir.” E fechei a porta. E tu adormeceste, como se tivesses percebido. Foi a primeira vez que soube ali, que tu eras mais de explicações. Desde esse dia que sei que tu precisas que te expliquem as razões da vida. Porque eu disse nunca serviu para te satisfazer. Ainda bem. És inteligente. Hoje, com quase 8 anos, ainda és assim. Contigo, não há nada que não tenha uma pergunta atalhada. Porque vais, porque ficas, porque é azul, amarelo ou encarnado, porque tens tantos avós, sempre, sempre, sempre. Quando andávamos só nós os dois no carro, repetia-te palavras em inglês, como apple e bottle, na esperança que as repetisses. E um dia disseste-me “Apple”. E eu desatei-me a rir. Eras tão engraçado. E tão pequenino. Tinhas umas bochechas redondinhas e rosadinhas. E os pés mais queridos. Feios como os meus, mas tão queridos. Tinha sido uma de duas coisas que tinha “pedido” para tu não teres. Os meus pés. A outra era a asma. Prefiro que tenhas os meus pés. E assim como assim, os rapazes não têm de ter pés bonitos. Até é natural que não tenham. Era só melhor para ti teres uns pés menos parecidos com os meus. Mas, tal como ainda hoje, és um dos dois míudos mais bonitos que conheço. O outro sabes quem é. És o meu Rodrigo preferido, o meu filho mais velho preferido. Continuas a ser um boneco. Sofres como a mãe com coisas tontas e gostava de saber como evitar que sofras tanto. Demorei tanto tempo a saber – e ainda não sei muito bem se sei completamente – parar quando é preciso parar, pôr-me no meu lugar e pesar as tristezas com as alegrias. Gostava que soubesses que as coisas verdadeiramente graves da vida são o que põe o que não é grave em perspectiva. Mas às vezes isso só se aprende tarde. O que a mim me pôs os pés no chão não desejo a ninguém. A ti, meu amor grande, só desejo coisas boas. Não só aquelas de cliché que “qualquer mãe deseja a um seu filho” mas outras também. Desejo especialmente que sigas os teus sonhos. Nem sempre somos todos capazes de agarrar os sonhos que temos, de ter força para os levantar do chão e construir. A ti, desejo-te que sejas sempre capaz de te levantar e contigo, levantar os teus sonhos. Sejam sonhos de ser surfista, como dizes agora que queres ser, ou de ter uma empresa tua, ou de ser médico, enfermeiro ou limpador de ruas. De qualquer modo, quero que sejas feliz. E que essa felicidade esteja sempre acompanhada pelas pessoas que queres que te acompanhem. Os sonhos são difíceis de tornar realidade. E há milhares de pessoas no Mundo. Nesses milhares, há, meu amor, umas largas centenas que te podem ajudar a cair e outras tantas centenas que te podem ajudar. Sem ser preciso ir às largas centenas que habitam a Terra, tens os teus pais aqui e sempre. O Pai e eu estaremos sempre no teu caminho, ao teu lado. Se queres pegar numa prancha de surf e seguir esse sonho, força. Se quiseres, vou contigo. És filho do mar, tal como eu. Ainda hoje, houvesse mais tempo e mais oportunidade – e o Pai gostasse mais de ir à praia – eu não faria outra coisa. Quaisquer que sejam os sonhos, Kikas da mia mãe, eu vou contigo. Levo-te comigo a todo o lado. Espero que me leves também. No teu olhar vejo muito do meu olhar, das tristezas que no nosso prisma são sempre as mais importantes e as mais graves. As nossas dores, como as nossas alegrias, são muito maiores que as dos outros. A perspectiva é terrível, mas passa depressa. Tal como tudo na vida. Espero ser sempre capaz de te mostrar que o que importa na vida é o amor maior que temos uns pelos outros, que o respeito se dá tanto quanto se recebe e que a nossa família será, sempre que fôr possível - e esperemos que seja sempre - a tua torre de força mas também o teu salva-vidas, a tua ilha. Espero que saibas que estou sempre aqui. Tu, meu Kiko, viverás sempre no meu coração. E eu, dou-to, a ti e ao mano e ao pai. Vocês dão cabo do meu juízo mas eu não vos trocaria por nada. Mesmo que alguém me viesse dizer que era possível ter-vos sem as maluquices, sem o cansaço, sem as doenças, sem os restos de bolacha debaixo das vossas cadeirinhas ou sem restos de rebuçado nas mãos. Sem nada disso, vocês não seriam vocês. E eu não quereria outros. Meu Kiko, meu amor grande, meu primeiro querido filho, lindo de morrer todos os dias, careca ou cabeludo, olho bonito e expressivo, meu tudo, a mãe adora-te. Sempre. Nada do que tu possas fazer vai mudar isso. Por isso, meu pequeno, muitos parabéns, nesta data querida. É mesmo querida. É o teu dia. O dia do arco-(da)-íris, o dia 30. Um dia fabuloso, porque o fizeste assim. E porque és tu.

Amo-Te meu bébé, já não tão bébé assim.

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