Foi num dia feliz que soube. Soube que eras tu. Que
ias chegar e arrebatar-me. Que ias atacar todas as bases e estruturas. Soube
que sabia. Chegaste e assim foi. Levantaste os meus pés do chão e puseste-me no
ar. Chegaste pequeno e bonitão. Muito cabelo numa redonda cabeça, com um ar
rechonchudo e cor-de-rosa. Eras comprido, mas não muito. Eras pesado, mas não
muito. Não eras loiro como te tinha antevisto. Não tinhas os meus olhos nem o
meu nariz. Não tinhas fome. E gemias imenso. Eras pequenino. Tão pequenino que
na minha pequenez de 24 anos te enterravas nos meus braços. Parecia ser o único
sitio onde te sentias bem. Não gostavas do colo de ninguém. A combinação
perfeita era o colo da mãe e a voz do pai. Chegaste num dia que amanheceu
chuvoso. Havia um arco-(da)-íris por cima do hospital. O Avô disse que devia
ser bom sinal. Afinal estavas a chegar. Era segunda-feira, antevia-se um dia
maravilhoso. Eras tão perfeitinho. Nunca tinha visto ou sentido um bébé daquela
forma. Eras só nosso, só meu. Não queria partilhar-te com ninguém. Passámos uns
dias no hospital. Eras fantástico. Puseram-te num tupperware, de óculos escuros, todo virado para cima, como um
sapinho miniatura. Estavas a dar um ar da tua graça, nos teus banhos de
vitamina B12, naquele tupperware. Levámos-te
para casa. E eu, cantava-te todos os dias. Naquele tempo em que ainda éramos só
nós, e tínhamos tempo só para ti. Cantava contigo pendurado no marsúpio,
enquanto lavava a loiça toda debruçada. Arrumava a tua roupa enquanto
namorávamos naquele tempo só nosso. Éramos só nós os três durante um bocadinho.
Nesse bocadinho, íamos muitas vezes ao jardim da Estrela, como fizeram comigo e
com o tio João, back in the day.
Aproveitámos-te todos os dias. Eras tão pequenino. Cabias do meu antebraço ao
meu pulso, todo enroladinho. Adormecias com a maior das facilidades. Eras
sorridente. Tinhas os espirros mais fantásticos. Eras um Nenuco de bébé.
Agarravas na chu e tiravas da boca.
Depois choravas desalmado porque a chu
estava na tua mão mas não eras capaz de a pôr onde a tinhas tirado. Eras tão
pequenino. Sentava-te na cadeirinha de baloiço e dava ao pé. Dormias sestas de
4 horas. Comias à hora certa, dormias à hora certa. Dormias oito horas à noite
desde as tuas duas semanas de vida. Foste sempre um bébé perfeitinho. Eras
friorento. Tinhas mau génio e não gostavas de estar sozinho. Tirei um mestrado
em skills de ninja contigo. Rebolava de cima da cama dos pais para o chão e
depois para a lateral do berço, pelo chão. Assim que conseguia pôr-me de pé e
fechar a porta, começavas a chorar. E eu, sozinha, voltava para trás e repetia
o esquema. Um dia zanguei-me contigo e disse-te muito claramente “tens de
dormir Kikas, a mãe está cansada. Tenho muito sono e precisamos os dois de
dormir.” E fechei a porta. E tu adormeceste, como se tivesses percebido. Foi a
primeira vez que soube ali, que tu eras mais de explicações. Desde esse dia que
sei que tu precisas que te expliquem as razões da vida. Porque eu disse nunca serviu para te satisfazer. Ainda bem. És
inteligente. Hoje, com quase 8 anos, ainda és assim. Contigo, não há nada que
não tenha uma pergunta atalhada. Porque vais, porque ficas, porque é azul,
amarelo ou encarnado, porque tens tantos avós, sempre, sempre, sempre. Quando
andávamos só nós os dois no carro, repetia-te palavras em inglês, como apple e bottle, na esperança que as repetisses. E um dia disseste-me
“Apple”. E eu desatei-me a rir. Eras tão engraçado. E tão pequenino. Tinhas
umas bochechas redondinhas e rosadinhas. E os pés mais queridos. Feios como os meus,
mas tão queridos. Tinha sido uma de duas coisas que tinha “pedido” para tu não
teres. Os meus pés. A outra era a asma. Prefiro que tenhas os meus pés. E assim
como assim, os rapazes não têm de ter pés bonitos. Até é natural que não
tenham. Era só melhor para ti teres uns pés menos parecidos com os meus. Mas,
tal como ainda hoje, és um dos dois míudos mais bonitos que conheço. O outro
sabes quem é. És o meu Rodrigo preferido, o meu filho mais velho preferido.
Continuas a ser um boneco. Sofres como a mãe com coisas tontas e gostava de
saber como evitar que sofras tanto. Demorei tanto tempo a saber – e ainda não
sei muito bem se sei completamente – parar quando é preciso parar, pôr-me no
meu lugar e pesar as tristezas com as alegrias. Gostava que soubesses que as
coisas verdadeiramente graves da vida são o que põe o que não é grave em
perspectiva. Mas às vezes isso só se aprende tarde. O que a mim me pôs os pés
no chão não desejo a ninguém. A ti, meu amor grande, só desejo coisas boas. Não
só aquelas de cliché que “qualquer mãe deseja a um seu filho” mas outras
também. Desejo especialmente que sigas os teus sonhos. Nem sempre somos todos
capazes de agarrar os sonhos que temos, de ter força para os levantar do chão e
construir. A ti, desejo-te que sejas sempre capaz de te levantar e contigo,
levantar os teus sonhos. Sejam sonhos de ser surfista, como dizes agora que
queres ser, ou de ter uma empresa tua, ou de ser médico, enfermeiro ou limpador
de ruas. De qualquer modo, quero que sejas feliz. E que essa felicidade esteja
sempre acompanhada pelas pessoas que queres que te acompanhem. Os sonhos são
difíceis de tornar realidade. E há milhares de pessoas no Mundo. Nesses
milhares, há, meu amor, umas largas centenas que te podem ajudar a cair e
outras tantas centenas que te podem ajudar. Sem ser preciso ir às largas
centenas que habitam a Terra, tens os teus pais aqui e sempre. O Pai e eu
estaremos sempre no teu caminho, ao teu lado. Se queres pegar numa prancha de
surf e seguir esse sonho, força. Se quiseres, vou contigo. És filho do mar, tal
como eu. Ainda hoje, houvesse mais tempo e mais oportunidade – e o Pai gostasse
mais de ir à praia – eu não faria outra coisa. Quaisquer que sejam os sonhos, Kikas da mia mãe, eu vou contigo.
Levo-te comigo a todo o lado. Espero que me leves também. No teu olhar vejo
muito do meu olhar, das tristezas que no nosso prisma são sempre as mais
importantes e as mais graves. As nossas dores, como as nossas alegrias, são
muito maiores que as dos outros. A perspectiva é terrível, mas passa depressa.
Tal como tudo na vida. Espero ser sempre capaz de te mostrar que o que importa
na vida é o amor maior que temos uns pelos outros, que o respeito se dá tanto
quanto se recebe e que a nossa família será, sempre que fôr possível - e esperemos
que seja sempre - a tua torre de força mas também o teu salva-vidas, a tua
ilha. Espero que saibas que estou sempre aqui. Tu, meu Kiko, viverás sempre no
meu coração. E eu, dou-to, a ti e ao mano e ao pai. Vocês dão cabo do meu juízo
mas eu não vos trocaria por nada. Mesmo que alguém me viesse dizer que era
possível ter-vos sem as maluquices, sem o cansaço, sem as doenças, sem os restos
de bolacha debaixo das vossas cadeirinhas ou sem restos de rebuçado nas mãos.
Sem nada disso, vocês não seriam vocês. E eu não quereria outros. Meu Kiko, meu
amor grande, meu primeiro querido filho, lindo de morrer todos os dias, careca
ou cabeludo, olho bonito e expressivo, meu tudo, a mãe adora-te. Sempre. Nada
do que tu possas fazer vai mudar isso. Por isso, meu pequeno, muitos parabéns,
nesta data querida. É mesmo querida. É o teu dia. O dia do arco-(da)-íris, o
dia 30. Um dia fabuloso, porque o fizeste assim. E porque és tu.
Amo-Te meu bébé, já não tão bébé assim.