quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Trinta de Novembro de Dois Mil e Nove

Foi num dia feliz que soube. Soube que eras tu. Que ias chegar e arrebatar-me. Que ias atacar todas as bases e estruturas. Soube que sabia. Chegaste e assim foi. Levantaste os meus pés do chão e puseste-me no ar. Chegaste pequeno e bonitão. Muito cabelo numa redonda cabeça, com um ar rechonchudo e cor-de-rosa. Eras comprido, mas não muito. Eras pesado, mas não muito. Não eras loiro como te tinha antevisto. Não tinhas os meus olhos nem o meu nariz. Não tinhas fome. E gemias imenso. Eras pequenino. Tão pequenino que na minha pequenez de 24 anos te enterravas nos meus braços. Parecia ser o único sitio onde te sentias bem. Não gostavas do colo de ninguém. A combinação perfeita era o colo da mãe e a voz do pai. Chegaste num dia que amanheceu chuvoso. Havia um arco-(da)-íris por cima do hospital. O Avô disse que devia ser bom sinal. Afinal estavas a chegar. Era segunda-feira, antevia-se um dia maravilhoso. Eras tão perfeitinho. Nunca tinha visto ou sentido um bébé daquela forma. Eras só nosso, só meu. Não queria partilhar-te com ninguém. Passámos uns dias no hospital. Eras fantástico. Puseram-te num tupperware, de óculos escuros, todo virado para cima, como um sapinho miniatura. Estavas a dar um ar da tua graça, nos teus banhos de vitamina B12, naquele tupperware. Levámos-te para casa. E eu, cantava-te todos os dias. Naquele tempo em que ainda éramos só nós, e tínhamos tempo só para ti. Cantava contigo pendurado no marsúpio, enquanto lavava a loiça toda debruçada. Arrumava a tua roupa enquanto namorávamos naquele tempo só nosso. Éramos só nós os três durante um bocadinho. Nesse bocadinho, íamos muitas vezes ao jardim da Estrela, como fizeram comigo e com o tio João, back in the day. Aproveitámos-te todos os dias. Eras tão pequenino. Cabias do meu antebraço ao meu pulso, todo enroladinho. Adormecias com a maior das facilidades. Eras sorridente. Tinhas os espirros mais fantásticos. Eras um Nenuco de bébé. Agarravas na chu e tiravas da boca. Depois choravas desalmado porque a chu estava na tua mão mas não eras capaz de a pôr onde a tinhas tirado. Eras tão pequenino. Sentava-te na cadeirinha de baloiço e dava ao pé. Dormias sestas de 4 horas. Comias à hora certa, dormias à hora certa. Dormias oito horas à noite desde as tuas duas semanas de vida. Foste sempre um bébé perfeitinho. Eras friorento. Tinhas mau génio e não gostavas de estar sozinho. Tirei um mestrado em skills de ninja contigo. Rebolava de cima da cama dos pais para o chão e depois para a lateral do berço, pelo chão. Assim que conseguia pôr-me de pé e fechar a porta, começavas a chorar. E eu, sozinha, voltava para trás e repetia o esquema. Um dia zanguei-me contigo e disse-te muito claramente “tens de dormir Kikas, a mãe está cansada. Tenho muito sono e precisamos os dois de dormir.” E fechei a porta. E tu adormeceste, como se tivesses percebido. Foi a primeira vez que soube ali, que tu eras mais de explicações. Desde esse dia que sei que tu precisas que te expliquem as razões da vida. Porque eu disse nunca serviu para te satisfazer. Ainda bem. És inteligente. Hoje, com quase 8 anos, ainda és assim. Contigo, não há nada que não tenha uma pergunta atalhada. Porque vais, porque ficas, porque é azul, amarelo ou encarnado, porque tens tantos avós, sempre, sempre, sempre. Quando andávamos só nós os dois no carro, repetia-te palavras em inglês, como apple e bottle, na esperança que as repetisses. E um dia disseste-me “Apple”. E eu desatei-me a rir. Eras tão engraçado. E tão pequenino. Tinhas umas bochechas redondinhas e rosadinhas. E os pés mais queridos. Feios como os meus, mas tão queridos. Tinha sido uma de duas coisas que tinha “pedido” para tu não teres. Os meus pés. A outra era a asma. Prefiro que tenhas os meus pés. E assim como assim, os rapazes não têm de ter pés bonitos. Até é natural que não tenham. Era só melhor para ti teres uns pés menos parecidos com os meus. Mas, tal como ainda hoje, és um dos dois míudos mais bonitos que conheço. O outro sabes quem é. És o meu Rodrigo preferido, o meu filho mais velho preferido. Continuas a ser um boneco. Sofres como a mãe com coisas tontas e gostava de saber como evitar que sofras tanto. Demorei tanto tempo a saber – e ainda não sei muito bem se sei completamente – parar quando é preciso parar, pôr-me no meu lugar e pesar as tristezas com as alegrias. Gostava que soubesses que as coisas verdadeiramente graves da vida são o que põe o que não é grave em perspectiva. Mas às vezes isso só se aprende tarde. O que a mim me pôs os pés no chão não desejo a ninguém. A ti, meu amor grande, só desejo coisas boas. Não só aquelas de cliché que “qualquer mãe deseja a um seu filho” mas outras também. Desejo especialmente que sigas os teus sonhos. Nem sempre somos todos capazes de agarrar os sonhos que temos, de ter força para os levantar do chão e construir. A ti, desejo-te que sejas sempre capaz de te levantar e contigo, levantar os teus sonhos. Sejam sonhos de ser surfista, como dizes agora que queres ser, ou de ter uma empresa tua, ou de ser médico, enfermeiro ou limpador de ruas. De qualquer modo, quero que sejas feliz. E que essa felicidade esteja sempre acompanhada pelas pessoas que queres que te acompanhem. Os sonhos são difíceis de tornar realidade. E há milhares de pessoas no Mundo. Nesses milhares, há, meu amor, umas largas centenas que te podem ajudar a cair e outras tantas centenas que te podem ajudar. Sem ser preciso ir às largas centenas que habitam a Terra, tens os teus pais aqui e sempre. O Pai e eu estaremos sempre no teu caminho, ao teu lado. Se queres pegar numa prancha de surf e seguir esse sonho, força. Se quiseres, vou contigo. És filho do mar, tal como eu. Ainda hoje, houvesse mais tempo e mais oportunidade – e o Pai gostasse mais de ir à praia – eu não faria outra coisa. Quaisquer que sejam os sonhos, Kikas da mia mãe, eu vou contigo. Levo-te comigo a todo o lado. Espero que me leves também. No teu olhar vejo muito do meu olhar, das tristezas que no nosso prisma são sempre as mais importantes e as mais graves. As nossas dores, como as nossas alegrias, são muito maiores que as dos outros. A perspectiva é terrível, mas passa depressa. Tal como tudo na vida. Espero ser sempre capaz de te mostrar que o que importa na vida é o amor maior que temos uns pelos outros, que o respeito se dá tanto quanto se recebe e que a nossa família será, sempre que fôr possível - e esperemos que seja sempre - a tua torre de força mas também o teu salva-vidas, a tua ilha. Espero que saibas que estou sempre aqui. Tu, meu Kiko, viverás sempre no meu coração. E eu, dou-to, a ti e ao mano e ao pai. Vocês dão cabo do meu juízo mas eu não vos trocaria por nada. Mesmo que alguém me viesse dizer que era possível ter-vos sem as maluquices, sem o cansaço, sem as doenças, sem os restos de bolacha debaixo das vossas cadeirinhas ou sem restos de rebuçado nas mãos. Sem nada disso, vocês não seriam vocês. E eu não quereria outros. Meu Kiko, meu amor grande, meu primeiro querido filho, lindo de morrer todos os dias, careca ou cabeludo, olho bonito e expressivo, meu tudo, a mãe adora-te. Sempre. Nada do que tu possas fazer vai mudar isso. Por isso, meu pequeno, muitos parabéns, nesta data querida. É mesmo querida. É o teu dia. O dia do arco-(da)-íris, o dia 30. Um dia fabuloso, porque o fizeste assim. E porque és tu.

Amo-Te meu bébé, já não tão bébé assim.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Querido Mundo... Quem me dera


Quem me dera que o respeito estivesse em todos. Que fosse natural para todos o respeito e a igualdade da (e pela) vida humana. Que não houvesse quem se acha superior ou quem faz sentir inferior.
Quem me dera que fossemos bons, sem ser preciso andar em guerra. Que não houvesse necessidade de discutirmos que “Deus” é melhor ou pior, ou mais justo ou mais bonito. Mais que tudo, que fosse possível termos paz entre todos os povos de todos os continentes.
Quem me dera que o amor fosse uma coisa óbvia e não forçada. Que não fosse um sentimento estranho a ninguém, que todos soubéssemos amar e ser amados, sem tretas.
Quem me dera que todas as crianças tivessem um colo quando precisam. Que não víssemos todos os dias, cada vez mais, meninos sem roupa, sem pais, sem família, sem ninguém. Que eles não fossem deixados à mercê de intempéries, de criaturas horrorosas, de maus corações.
Quem me dera que as histórias de amor fossem as mais noticiadas e não as histórias de guerra. Que todos os dias o telejornal abrisse com notícias de mais crianças adoptadas por famílias decentes, de mais mulheres que conseguiram finalmente ter o primeiro bébé, de mais míudos ingressados na faculdade, da descida do número de incêndios, de mortos em guerras, de desgraças monstruosas criadas - ou não - pelo ser humano.
Quem me dera que a inspiração dos jornalistas pudesse ser sempre baseada no amor. Que só houvesse razões para celebrar o amor entre nós, que a tolerância fosse partilhada de igual forma, ai quem me dera.
Quem me dera que as batalhas campais que se fazem nos tribunais não fossem necessárias. Que não precisássemos de ser baixos, de ser cobardes, de ser mesquinhos. Que fossemos todos honestos.
Quem me dera que pudéssemos todos viver em harmonia. Que não se arremessasse ao próximo e o próximo com bardajonices, indecências. Afinal, partilhamos uma mesma casa, sem que isso nos impeça de actuar como se fosse mais minha que tua. Não é. Esta casa é de todos nós.
Quem me dera que não houvesse fome na pança de nenhum(a) menino(a). Que houvesse para todos, em quantidades proporcionais. Que houvesse tecto para todos, sonhos para todos e lugar para todos.
Quem me dera que o mundo fosse menos conflituoso. Que não fosse sempre tudo uma razão para dar um soco ou um pontapé, para sair do carro ou dizer uns palavrões.  
Quem me dera que fossemos um bocadinho menos loucos. Se assim fosse, eramos todos um bocadinho mais próximos, talvez. After all, somos todos da mesma raça. Mas às vezes esquecemo-nos.
Quem me dera que todos tivéssemos mãe e pai, e que eles fossem boas pessoas. Os pais que nos dão com conta, peso e medida: amor, carinho, casa, comida, roupa, educação, livros, filmes, música, o mundo. Esses pais.
Quem me dera que no fim das nossas vidas todos pudéssemos dizer que servimos um propósito, que deixámos uma marca, que deixámos o mundo um bocadinho melhor.
Quem me dera que o resultado das vidas de cada um de nós fosse e tivesse um impacto positivo.

Quem me dera...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Quando há tempo, haja tempo

Às vezes, não há tempo. Não há tempo para parar e cheirar as flores. Não há tempo para pensar no que foi ou no que vai ser. Não há tempo para agarrar o que caiu, nem sequer para dar por ter caído qualquer coisa. Não há tempo para dar um berro e dizer chega. Não há tempo para respirar, nem para sonhar nem para pegar ao colo os filhos que temos.
Há tempo para trabalhar, porque no trabalho só há três ou quatro horários para cumprir. O horário de entrar, de ir a intervalo, de ir almoçar e o de sair. No trabalho há sempre tempo. Há tempo para pensar no trabalho, no que temos para fazer depois do trabalho e no que fizemos antes do trabalho. Depois, bate a hora de sair, e já não há tempo outra vez.
Os sofredores são os mesmos, na corrida dos dias que passam, das semanas que se transformam em anos, porque é isso que acontece. Os sofredores da falta de tempo que somos nós. A geração dos millennials (como agora nos chamam). Houve falta de tempo para crescermos por causa dos telemóveis, da internet e das redes sociais. Houve falta de tempo porque a televisão Portuguesa chegou em força quando éramos pequenos, que nos deu acesso aos segredos que sabemos, cantado em altas vozes a partir das 7 da manhã aos Sábados, para ver com todo um furor as maravilhas da infância. Sou grata por ter vivido e fazer parte da ultima geração ANTES da porcaria que se vive agora. De ter tido de ir ao dicionário quando a meio de uma conversa com o meu Pai se falava em contradições – e eu, na minha ignorância infantil desconhecia a expressão –, de ter feito extensos trabalhos pesquisados em enciclopédias divididas em volumes ordenados alfabeticamente, por ter tido a oportunidade de olhar para o ar e não para a mão onde  posa o telemóvel. Sei que sempre fui um bocadinho fora da minha idade porque me ensinaram coisas que me interessaram como os nomes das árvores em latim ou o nome científico dos insectos a que sou alérgica por ser asmática. Porque isso não são de todo o tipo de coisas que interessam as pessoas da minha idade. Também porque apesar de ter obviamente um especial lugar no meu coração - e cabeça - para a Britney Spears e para os BackStreet Boys – a minha música é música considerada velha para os meus amigos. Porque dou 5 tostões para ouvir James Taylor e Barbra Streisand e não dou para ouvir Jack Johnson – ou outros. Consigo ouvir e apreciar o meu tempo, a minha geração e as pessoas à minha volta. Não vivo num sonho de voltar ao passado nem de querer viver num qualquer passado.
Mas gostava muito de poder transportar os meus filhos a um tempo em que tudo não é uma corrida, em que há tempo para cheirar as flores, em que os telemóveis não têm lugar nem espaço, em que não são eles que têm as respostas a todas as perguntas. (Suponho que neste momento, não conheço uma pessoa que, pondo-lhe uma dúvida, não ponha a mão no bolso para ir ver ao Google – esse tão afável amigo que sabe SEMPRE todas as respostas, até quando estão erradas. Talvez a Avó... Mas só ela.)

Não quero - de todo! - que vivam no passado, mas quero que percebam que as supostas facilidades do presente, estão mascaradas, escondidas e que às vezes estão ali para nos fazer rasteiras, que não resolvem os nossos problemas e que o Facebook, por exemplo, é muitas vezes uma sopa de bullies e maldizentes, descrentes, amargurados com a vida. A nossa vida faz-se de exemplos, os que damos e os que recebemos. Os filhos que temos são o nosso fruto. Do nosso trabalho, esforço, perseverança, amor ou do contrário de tudo isto. Depende de nós e dependem de nós. Depois de ouvir uma maravilhosa entrevista de um cantor actual num programa de Sábado, alegrei-me ao saber que as pessoas da minha geração já não são assim tão exageradamente loucas como eram há uns anos, que ainda acreditam no exemplo do casamento dos pais ou avós, que ainda sabem ir ao jardim sem o telefone, que apreciam passeios ao fim da tarde – clichés, eu sei. Nos últimos anos tenho feito um esforço, quase irritante, para aproveitar o tempo que tenho e que é meu. E com ele fazer o que mais gosto, tentando englobar os meus filhos e marido – às vezes a contragosto – nessas coisas que são fazer bolachas, passear pelo país, ensinar-lhes coisas que sei e aprender com eles o que não sei. Falamos de música, de história e de coisas palermas também. Discutimos os superlativos de palavras giras como estúpido ou – sim eu sei, é infantil e inapropriado – cócó. Mantenho em mim a Xica Larica de 4 anos todas as vezes que posso. Não perco nada com isso. Já recebo os olhares das mães mais velhas que eu porque ando de jardineiras, porque não me maquilho, porque sou tão novinha, ou porque canto as músicas do Disney Junior – e as oiço no carro, com ou sem eles. Sou uma míuda pequena dentro do corpo de uma adulta, que gostava de viver noutro tempo. De qualquer modo, sou eu. Acho que os meus filhos têm imenso a ganhar em ter pais “novos”. Apercebo-me com alguma frequência que os pais dos amigos dos meus filhos têm como filho mais velho filhos da idade do meu filho mais novo. O gap geracional existe, mas nas cabeças dos outros pais. A maravilha de tudo isto é que o tempo, quando não falta, é aproveitado com muita energia e muita vontade. Se tivesse 40 anos, não seria assim. E deste modo, os meus filhos, serão adolescentes cool, com pais que podem ou não, levá-los a sair à noite, a seu tempo. Ser novinho é fixe, ser adulto também. Músicas de desenhos animados ou James Taylor, haja tempo para passarmos com os nossos filhos, que são nossos até certo ponto. Depois são do Mundo, como o Cine-Girassol. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mais respeito e menos atitude

Quando o sr. precisa terminantemente de entregar as revistas à porta da papelaria e fecha a circulação da rua, está a impedir os meus filhos de chegar a horas à escola. Quando o sr. estaciona o carro ao lado do meu, em segunda fila, está a impedir os meus filhos de chegar a horas à escola. Quando a sra. deixa o seu carro no meio da estrada para ir deixar os seus filhos à escola, está a impedir os meus filhos de chegar a horas à escola. Quando o sr. decide circular na berma mais à direita no eixo N-S, está a impedir os serviços de emergência de circular por aí, caso seja necessário. Quando o sr. me ultrapassa pela direita, está a pôr em risco a minha vida e a sua. Quando o sr. conduz e manda mensagens ao mesmo tempo, está a pôr os meus filhos em risco. Quando a sra. decide que só precisa de uma mão para conduzir porque a sua chamada é muito importante, está a pôr o meu marido em risco. Quando os meninos atravessam a estrada a correr, fora da passadeira, estão a pôr a vossa vida em risco. Quando a polícia estaciona o carro em cima da passadeira, numa esquina, estão a pôr a população em risco. Quando a Maria deixa o carro em cima do passeio, está a obrigar uma mãe com um carrinho de bébé a passar na estrada - e a pôr duas vidas em risco. Quando o António excede a velocidade permitida por lei, está a pôr-se em risco, e à sua família. Quando a Teresa lhe buzina e você decide que a atitude certa é levantar-lhe o dedo do meio, está a pôr a vida da Teresa em risco. Eu estar dentro do MEU carro, de calções/saia, não te dá o direito de espreitar para dentro do meu carro, e está a pôr-me em risco. Sou tão mulher quanto a tua MÃE, a tua FILHA, a tua IRMÃ. Podia ser qualquer uma delas, porque a realidade é que nem olhaste para mim. Reages antes de agires.
Quando TU decides que a tua vida é mais importante que a dos outros, estás a pôr todas as vidas em risco. Quando impedes que te ultrapassem pela direita – e estás a cumprir o código da estrada – mas podes estar a pôr a tua vida em risco.
A TUA vida não é mais importante que a dos outros. Os TEUS filhos não são mais importantes que os dos outros. O TEU carro não é mais importante que o dos outros. A TUA pressa não tem mais pressa que a dos outros. O respeito que deves aos outros deves exigi-lo também. A TUA condução agressiva não é melhor que a condução passiva dos outros. O facto de eu ser mulher não faz com que tu sejas melhor condutor que eu. Nem faz de mim melhor condutora que tu. Andares sem luzes à noite põe-te em risco, mas põe-me a mim também. O facto de tu te achares acima da lei não te põe acima da lei. O respeito e decência na estrada deve ser tido em conta para que todos possamos estar em paz. O respeito ensina-se. Os filhos vêem-nos a conduzir e a insultar, imitam e repetem nas suas brincadeiras, um dia irão conduzir como viram conduzir. Queres mesmo ouvir os teus filhos a repetirem o que dizes à frente dos teus netos?

Mais respeito na estrada - e na vida. E sempre, mais amor. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Pai Di e a arte de maternizar

Nas últimas duas semanas, estivemos só nós os três. Estive em full-mom-mode. Sozinha, com dois rapazes, de sete e quatro anos. Que puxam, empurram, sobem e descem.
Eu sei que há Mães que fazem sempre isto. Eu sei que há Mães que exercem o seu papel por mãe e pai, todos os dias. Há Mães que o fazem porque os Pais não o fazem. Ou porque os Pais não estão lá. Eu, que fui abençoada com um marido que me ajuda todos os dias com eles, não estou habituada a exercer o papel sozinha. Maternizar é um papel difícil. Ser a bruxa e a má todos os dias é dificil. Ser sempre quem tem de dizer que não é díficil para mim. Não estou habituada a ser o bad cop all the time. Todos os dias há mais um degrau para subir. E uns tantos que eles descem sozinhos. E que nós descemos atrás deles e voltamos a subir, às vezes com eles ao colo. Faz-nos bem a todos separar-mo-nos temporariamente. Para descolar maus hábitos, para sentirmos falta uns dos outros, para nos amarmos mais. Para sabermos que existimos uns sem os outros. É o descolar de um penso que está colado há dias. Mas depois torna-se tempo “a mais”. Depois eles ficam com saudades demais, que não sabem ainda controlar e com as quais não sabem lidar. Dói-lhes o Pai não estar para ajudar, para separar das guerras, para ser ele a aconchegar à noite. Querem ligar a todas as horas porque não sabem – e não têm noção - que o Pai está a trabalhar, noutro país. Não percebem o quanto custa também ao Pai não estar cá, que a ele também lhe dói – e se calhar, mais um bocadinho, porque está sozinho e nós temo-nos uns aos outros. Tem dias em que tudo é uma constante batalha com eles mas sem os cinco exércitos. Eu sou um exército contra os imensos pedidos dos meus halflings. Para dar um exemplo do que um dia menos bom nos traz, ontem fomos ao Pingo Doce. E começámos assim:
- “Mãe podemos levar sumo? E cenouras? E morangos? Podemos levar barrinhas de cereais? E cereais? E batatas fritas? Podemos beber sumo ao jantar? Podemos ter um chupa? E um gelado? Só temos direito a quatro packs de cartas? Oh Mãe...  
- Podemos ir beber água? Oh Mãe vá lá, está imenso calor. Oh Mãe 'tou com tosse porque não bebi água suficiente.
- Ah, Mãe, preciso que desinfecte a minha ferida! Mãe, eu também. Teve sangue. Mãe caí na escola. Outra vez. Em cima da ferida que tinha feito ontem. Mãe, tá a doer imenso. O João disse que não era nada e depois ficou com pena de um míudo que caiu no campo. Só se importa com os que estão a jogar futebol. Dói imenso, Mãe.
- Oh Mãe, não convide X amigo. É um chato. Oh Mãe, pode desinfectar a minha ferida? Mãe, a música acabou. Mãe, podemos ver as Tartarugas-Ninja? E depois do banho? E depois do jantar?
- Mãe. Oh Mãe. Mãeeeeeeeeeeeee!!!!! Ele bateu-me. E ele empurrou-me! Mãe podemos ter um chupa? Vá lá Mãe. Oh Mãe e pastilhas? Estas são bué boas!!!!”
Assim que chegamos a casa têm tendência para acalmar e pedir menos. Penso muitas vezes o quanto as crianças pedem e o quanto dou às minhas. Quase sempre, nego tudo o que me pedem. Quase sempre. Raramente levo porcarias para casa. Pastilhas e chupas nunca. Trazem das festas e estragam-se na dispensa. (Ainda há uns quinze dias deitei fora dois saquinhos que vieram de uma distante festa de anos, praticamente cheios. Só guardei os balões.) Não sei se ontem pediam tanto porque nunca dou, ou porque o pai não está cá e estão mais carentes, ou se é porque são todos assim. Mas é tão ultra cansativo passar uma hora a dizer que não, justificando cada não com “Faz mal, não é bom, já temos, não precisamos, não precisamos, não precisAMOS!!!!”
Sei que faz parte também da maternidade/paternidade exercer este controlo sobre eles, que é no fundo, educá-los contra o consumismo desnecessário e inútil. Sei que eles têm um poder de “moer até ao sim” que é muitas vezes nele próprio um poder superior ao que a nossa cabeça - cansada e puída de preocupações e lembretes constantes – pode suportar. O sim vem muitas vezes como resposta (como um “já não posso mais com pedidos”). Não pode vir. Temos de ser fortes. Mas há dias em que estamos próximos do deslize, do “que se lixe”, do “não consigo aguentar mais”. Se há ser humano neste planeta que devia vir com livro de instruções são os filhos. Mas um livro para cada um, porque são todos diferentes. Estas mini-pessoas, que têm tantos sentimentos e sensações e complicações num corpo tão pequenino, ocupam todo o espaço, como a água. Às vezes ocupam até o espaço que já estava ocupado anteriormente.
Mas o Pai estará de volta amanhã e nós ansiosamente à espera. A excitação vai mantê-los acordados até mais tarde e amanhã vai ser um dia de loucos. Mas impagável será mesmo a chegada, e os abraços, e o amor todo – que estivemos a acumular durante duas semanas - despejado em jacto no Pai Di, que é e sempre será o nosso mais querido.
Muitas saudades, Di querido. Muitas.

E olha: “Frrruuuuuuu. Frrrrrrrruuuuuuuuuu. Come baaaaaaack. Come back.” 

sábado, 26 de agosto de 2017

Um "à parte", em defesa das crianças

O sofrimento de uma criança durante a separação e - nem sempre consequente -  divórcio de seus pais é inclassificável. Todos nós, que somos filhos de pais divorciados, sabemos que sim. As experiências podiam fazer-se, nem que fosse para chegarmos à mesma conclusão. O que nos afecta(ou) é sempre diferente. Começa logo por obviamente sermos todos pessoas singulares. Por isso, não vale a pena dizer(em) - psicólogos, advogados, juízes - que sabem o que vai na cabeça dos intervenientes. Nunca é o mesmo, de todas as vezes que um casal decide separar-se. E os filhos estão sempre no caminho, a não ser que vivam noutro planeta. Os nossos pais eram casados e separaram-se. Ou viviam juntos e separaram-se. De qualquer forma, a nossa infelicidade nunca vai ser igual à do próximo filho de pais divorciados/separados. Parece ser inevitável que os filhos sofram e é aí que quero chegar. Se os pais que se vão separar souberem isto de ante-mão, tornam as coisas mais fáceis para eles. Como filha, posso dizer-Vos que o tempo tratou de me limpar a alma e de me resolver - ou possivelmente, arrumar. Mas de todas as vezes que penso nessa época, lembro-me claramente da linha da frente da guerra. Lembro-me da linha da frente. No fim do dia, PAIS DIVORCIADOS ou SEPARADOS, que se LIXEM as vossas merdas. Desculpem a linguagem mas é mesmo assim. Arrastam os filhos para a chantagem emocional, muitas vezes, e dos outros tipos também. Tipo "se disseres que a tua mãe se mete nos copos, podes ficar a viver comigo." Uma criança com treze anos não percebe o que está em causa aqui. NÃO PERCEBE. Argumentarão, com certeza, que um miudo com treze anos sabe o que isso quer dizer. Só que não. Um miudo com treze anos nem sequer tem maturidade emocional ou psicológica suficiente para entender que ao dizer isso está:

- A dar pontos ao advogado do Pai ou da Mãe na batalha das custódias
- A destruir-se por dentro porque NENHUM FILHO NÃO GOSTA DA SUA MÃE ou DO SEU PAI
- A deixar a Mãe ou o Pai devastados, ainda que a Mãe ou o Pai percebam que ele o está a fazer contra si próprio
- E mais uma montanha de outras coisas...

É verdade que o acima pode não se aplicar à criança filha de BG e MMC, porque não os conheço. Mas todas as vezes que disse ou fiz disparates durante e nos anos imediatamente após o divórcio dos meus pais, foi porque achava que isso faria feliz um dos lados da batalha e por consequência faria mal ao outro.  Porque raio quer um filho fazer mal ao seu pai ou mãe durante o divórcio? Porque percebe que isso faz o outro lado feliz. Mesmo que isso só queira dizer trocos a mais na mesada ou mais uns passeios à praia com a entidade parental com quem vivemos, isso na cabeça de treze anos, é muito bom. "Whatever, tanto faz", como diziam os Azeitonas. Se o meu Pai ou Mãe me disse que o outro é uma besta, que se mete ou meteu nos copos, que fuma demais, que toma comprimidos para dormir ou outra coisa qualquer, nós vamos nisso porque eles são o nosso exemplo. É neles que confiamos. Com treze anos, já sabemos imensas coisas, mas não sabemos o quanto isso pode danificar nossa actual e futura relação com os nossos pais e atrevo-me a dizer, com os nossos futuros cônjuges. É uma caca. É uma altura em que estamos cheios de hormonas, que nos odiamos e amamos 100 vezes por dia. Por isso, acho que só chegamos a ter uma noção do que se passou, do que dissemos e do quanto podemos ter magoado alguém, aos vinte ou vinte-cinco anos, talvez até mais tarde. Esta lavagem de roupa suja, nas redes sociais e revistas sobre a criança e o que alegadamente terá dito, é nojenta. Entendam, num modo um pouco à Chelsea Clinton relativamente ao filho de Trump, que tal defendermos as crianças deste casal, que não têm culpa do que os pais fazem ou fizeram, dizem ou disseram? Que tal não alimentarmos as merdices e mesquinhices dos adultos para que estas crianças sejam salvaguardadas? Serei eu uma das poucas pessoas que se preocupa com o presente e futuro destes dois meninos, que estão a ser arrastados pela lama nas revistas com o objectivo de vender? Estamos a falar de um pré-adolescente, numa escola em que provavelmente toda a gente sabe quem são a mãe e o pai, desde aos empregados de limpeza à direcção da escola. Por isso, apelo aos adultos, que se comportem como adultos, que não alimentem estas porcarias destas conversas, revistas, posts, capas ou outros. Deixem estas crianças em paz, deixem de os arrastar para tribunal, deixem de os fazer sentir que faz sentido irem para tribunal apontar o dedo ao outro, que é horrível, que bebe, que bate, que maltrata. Ninguém é perfeito. Não defendo nem apoio BG ou MMC. Defendo os pequenos miudos envolvidos nesta lama. Ponham as crianças acima dos vossos supostos interesses materiais ou outros. 
Acima de tudo, defendam os vossos filhos, sobrinhos e netos para que não sofram mais do que o estritamente necessário, já que esse sofrimento é inevitável. Mas não usem as crianças como armas de arremesso, não usem as crianças. Amem-nas o melhor que sabem. É disso que eles precisam, de amor. De carinho, de atenção, de mimo. Façam-nas sentir que são o mais importante. Eles são vossos, tomem conta deles. No futuro, são eles que aqui estarão, ou não. E isso, isso depende inteiramente da família nuclear e da família que os rodeia.
Amem os vossos filhos. E, na medida do possível, deixem as merdas do divórcio fora das cabeças deles. Let that be only and exclusively your problem, not theirs.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Quando as férias chegam

As férias chegaram. 
Com elas, voltaram os filhos à casa-Mãe, que é como quem diz, a loucura, o barulho, o propriamente dito trabalho regressou. Voltaram as refeições feitas a horas, as horas de ir para a cama - se bem que estas últimas nem tanto assim. 
A primeira semana ficaram só comigo, nós os três, numa luta incessante de decisões difíceis, como escolher a piscina ou a praia. No primeiro dia, fomos à piscina oceânica. Quase como uma boa Mãe, às 9 estávamos a sair de casa. Às 9.25 a estacionar na marina de Oeiras que merece ser mencionada pela loucura de cobrar apenas 2€ por um dia quase inteiro de parquímetro. Como disse, eram 9.25. Os ditos 2€ serviriam até às 17.30. Podíamos ter ficado até essa hora, mas o plano era outro. 
Não sou Mãe de ir para estes sitios, naturalmente à pinha em Agosto, transbordantes de míudos pouco educados e adultos no mesmo estilo com um vocabulário de fazer corar os antigos e os novos taberneiros. Don´t get me wrong, eu também digo palavras menos bonitas. Mas não assim, não num recinto apinhado de piolhinhos pequeninos, ainda menos com o orgulho que os oiço dizer. 
O R e o F fizeram um amigo nos primeiros dez/quinze minutos - o T. A partir desse momento, o meu primeiro dia de férias oficial com eles foi babysitt. "Não vão para aí, não vão para ali, preciso de vos ver a todos os minutos, não saltem, não chapinhem, não atirem água às senhoras". (Parece estranha esta última afirmação mas digo-o constantemente aos míudos. É ofensivo como TUDO estar a entrar cuidadosamente na água - mar ou piscina - e ser borrifado por meia dúzia de esprenéficas criaturas miniatura, sem qualquer tipo de noção de que A PRAIA/PISCINA É DE TODOS. É por isso que não nos sentamos em cima dos outros, que não gritamos, que não estamos em casa.) Cada um de nós é - espera-se - tão ser humano como o próximo. Mas nalgumas praias, especialmente as da linha antes de Carcavelos, ou seja, child friendly, sem ondas, pouco espaço de fuga, etc., as pessoas comportam-se como se tivessem direitos superiores por terem chegado primeiro ou por viverem ali na zona. Só que não. A praia, as praias, SÃO DE TODOS. 
Na hora seguinte, mudaram o disco - vulgo cassete - porque "Oh Mãe, estamos cheios de fome, a morrer de fome, a passar fome" ou outra qualquer versão semelhante. Depois de um robusto pequeno-almoço às 8.30, às 10.30 estão a morrer de fome. Só há porcarias no bar - ou seja, há bolos tipo mil-folhas, bolas de berlim, pastéis de nata. Não há bolos de arroz, nem queques nem nada sem creme. Num Mundo tão preocupado com a alimentação que obriga a beber a cada 15 dias, quando o sol se põe em Narnia e os planetas estão alinhados em Vénus, um sumo verde-quase-alface, de seu nome detox, não há nada seco/sem quilos de químicos, para crianças. Estamos preocupados mas não há regras para que num sítio público a escolha não seja só os três bolos mais calóricos que se fazem em Lisboa. As mães não podem levar comida para a piscina, ou podem mas não podem comer lá dentro. Como já conheço a festa, comemos um pastel de nata, que dos três, sempre é o menos terrível. 
Estou constantemente ansiosa que metam a mão nas nossas coisas, por isso, sempre de olhos postos na minha toalha e restantes cacas de Mãe e de filhos, fomos os três à piscina grande. Mergulho sozinha, com os doidos sentados na borda da parte mais baixa da piscina. No way que eles entram sozinhos na água. O R fica com um palmo de água acima da cabeça, o F fica com três.  Sou uma chata, a maior das chatas, a mais melga das mães. Mas entram de mão dada, comigo, um a um, e seguram-se com unhas e dentes a mim, ao meu pescoço. Apesar do R já saber nadar, a água não é uma brincadeira. É num instante que eles vão ao fundo, se cansam, não conseguem mexer-se por causa do frio - por isso, sou uma chata. Ainda bem que sou, porque os meus sabem exactamente o que deixo e não deixo. 
Passámos o resto das horas até ao almoço na brincadeira, entre "estou cheio de frio"'s e cinco minutos depois "já tenho calor, posso ir para a água?"s. Comemos um cachorro cada um, que custou mais do que valia, mas foi divertido. Até às três, brincámos, nadámos, fizemos jogos com a bola do Faísca. 
Depois fomos para casa tomar banho e fomos buscar o Pai. 
No dia seguinte, foi feriado. Passámos o dia na praia, na nossa praia, com um lanche daqui à Lua, que a Mãe Xica fez. Quando a Mãe quer e tem paciência, há iogurtes para os quatro gostos, chá frio com limão, montanhas de pêssegos e maçãs aos quadradinhos num super tupperware, há pãezinhos para os pais, massas frias com salsichas para os pequenos, e às vezes, até há miminhos, tipo Kinder. Somos doidos e passamos os dias possivelmente inteiros na praia. Este dia em específico foi dos melhores que já tivemos em família. Brincámos imenso, passeámos imenso. No fim do dia, porque a Mãe estava nos píncaros de alegria por um dia sem guerrinhas, fomos comer caracóis. Andava a sonhar com caracóis, com uma imperial fresca depois de um dia como aquele.
Side-Note: Para todas as Mães e Pais, eu sei que às vezes as outras famílias com filhos parecem um espectáculo. Os míudos parecem estar sempre arrumadinhos, não se portam mal, não temos de gritar nem conjurar uns feitiços à Sauron. A minha experiência, é que é tudo aparência. Há dias fantásticos, em que é de facto assim, Mas a maioria dos dias, os míudos, ou só um deles, está de mau génio ou dormiu mal, não está de acordo com nenhuma decisão ou ordem parental, ou não quer só porque sim. Eles, todos eles, independentemente da idade, tiram-nos do sério e deixam-nos do avesso. 
O dia que passámos nesse feriado foi um dia maravilhoso. Estar de férias é óptimo. Porque os filhos estão de melhor com a vida do que nos outros dias. Porque nós também estamos de melhor com a vida. Porque podemos dedicar-nos uns aos outros com amor e mais nada. Por isso, e mais uma vez digo, mais amor. E mais dedicação às famílias.
Por aqui, as férias continuam e o amor também.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Saudades dos filhos

Há dias em que acordar é um mau princípio. Há dias que não devíamos sair da cama. Não o sabemos, claro, mas não devíamos. Há dias em que o silêncio matinal de uma casa com menos duas crianças é tortura. Há dias em que não passar a noite a acordar é estranho. Todos os dias da semana que passou parecia haver algo de errado lá em casa. O som dos filhos é algo que nunca sai da minha cabeça. A casa está vazia, mas nós estamos lá. O facto de eles não estarem faz diferença, cá uma diferença! Chegar a casa e simplesmente existir é coisa que não acontece senão nesta altura do ano. Deixamo-nos para trás em 90% dos dias do ano, somos os últimos a ir à casa de banho quando chegamos, somos os últimos a comer, somos os últimos a ir para a cama. É isto que é ser entidade parental. Sei que os pais e mães quase todos do Mundo passam por isto. Alguns muito tempo, outros menos tempo. Pôr-mo-nos para trás para os pôr à frente é essencialmente amor. É por amor a eles que o fazemos, não por desamor a nós. Quando a sobrevivência deles está nas nossas mãos, não há mais nada em questão. Eles estão à frente mesmo quando não querem estar. Sabemos que os filhos são as pessoas que mais nos amam – provavelmente, porque o amor não é mensurável. E depois de passar 11 meses e meio a viver com eles, a tomar conta de todas as suas necessidades primeiro, a dar-lhes de comer, a vesti-los e penteá-los, a dar-lhes banho e pôr-lhes creme e a prepará-los para quaisquer passeios, aulas ou festas, nestas raras duas semanas por ano em que não estou com eles mais do que 48 horas seguidas, durmo MAL. Passo as noites às voltas, acordo quase de hora a hora. Viro-me de um lado para o outro, inquieta. Há quatro ou cinco dias que ando nisto. Só hoje me passou pela cabeça que se calhar, só se calhar, tenho saudades dos meus filhos. Se calhar eles fazem-me muito mais falta do que eu lhes faço, porque ainda não pensam nisso. Se calhar, os meus meninos são muito mais do que o meu trabalho de os educar, limpar e manter limpos, alimentar e vestir e ensinar. Se calhar, os meus princípes são meus – tanto quanto um filho é de um pai – e por isso, dormir sem eles debaixo do meu tecto é coisa a que o meu corpo e –  maioritariamente – a minha cabeça, não vai habituar-se tão facilmente. Ah, os filhos. Que criaturas tão maravilhosas e loucas são os (meus) filhos. Oiço “aproveitem, vão sair, dêem passeios, vão jantar fora, etc, etc.” e nós, aproveitamos para descansar. Para ficar a aboborar no sofá, pé estendido, qual dondoca. Claramente, fui feita para ter os meus bébés ao pé de mim, não para os ter longe, ainda que por pouco tempo. Muitas vezes penso quanto eu gostava de poder estar muito mais tempo com eles, como gostava que o tempo se estendesse – e tivesse estendido no passado, no tempo em que os animais falavam e gordinhos eram bébés – para eu ter mais tempo de qualidade com eles. As férias são forçosamente agora, obriga a escola, obrigada pelo Estado, que obriga os pais, avós, tios e padrinhos a virarem-se do avesso para cobrir os malfadados 22 dias que a escola fecha. Eles amam esta loucura de saltar de praia para campo para praia para campo. Por enquanto, as saudades mantêm-se.

Daqui a uma semana já os rifo, porque já vou estar louca de tanto me zangar, mandar, acordar a meio da noite, e tudo o resto que fazemos quando eles estão presentes.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Liberdade da entidade parental

Parece haver uma liberdade nos adultos que só dura enquanto somos crianças. 
Os adultos ficam acordados até tarde. Os adultos podem comprar o que quiserem. Os adultos têm sempre dinheiro. Tomam banho quando lhes apetece. Escolhem o que é o jantar. Só comem sopa se lhes apetecer. Podem ir jantar fora quando querem. Podem andar de carro, escolher a musica, ligar o ar condicionado. Podem andar sem cadeirinha. Têm montes de coisas fixes. Estão com os amigos muitas vezes. Os adultos também podem beber café. Podem ir ao médico sem os pais. Os adultos podem sair depois do sol se pôr e podem escolher não levar as crianças. Os adultos podem votar. Podem ir à Missa, à praia, visitar os avós sempre que querem. Não precisam de ir à escola. Nem de fazer trabalhos de casa. Nem de estudar. Nem de ir à faculdade. Nem de fazer serões a escrever textos de 2500 palavras, com espaçamento 1,5, em Times New Roman, para entregar no dia seguinte. Os adultos têm imenso tempo para fazer coisas giras, tipo pintar paredes ou escrever cartas ou ler livros. Os adultos podem brincar com as coisas das crianças. Os adultos podem fumar e beber, à vontade. Não precisam de se esconder. Os adultos podem mesmo tudo. Os adultos têm imensa liberdade.
As crianças têm de ir para a cama cedo – porque faz bem ir para a cama cedo, porque estabiliza o crescimento do cérebro e neurónios e porque se levantam cedo no dia seguinte. As crianças devem ter tudo o que precisam, fornecido pela respectiva entidade parental. As crianças tomam banho à noite porque chegam da escola a cheirar a rapozecos, peganhentos e – muitas vezes – mal cheirosos. As crianças precisam de comer de tudo, por isso, comem o que os pais mandam. Comem sopa porque faz bem, porque tem legumes e porque toda a gente o devia fazer. As crianças jantam fora quando os pais deixam porque não têm idade para o fazer sozinhas. As crianças não podem conduzir, ouvem o que pedem com educação para ouvir quando os pais permitem e lhes apetece duas infinitas horas de música da Disney em repeat. Têm de andar de cadeirinha porque é obrigatório, porque é seguro, porque sim! As crianças têm brinquedos que lhes dão os pais, avós, tios, tios emprestados, padrinhos, madrinhas, e que infernizam os pais. Estão com os amigos na escola todos os dias, vêe

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Tratemos do Mundo!

Quando é que se decidiu que se podia maltratar pessoas diferentes de nós? Quando é que ficou estabelecido que as mulheres são inferiores ou os homens são superiores? Quando é que se decidiu que as pessoas de origens europeias, africanas, asiáticas, sul-americanas ou norte-americanas são desprezíveis? Quando é que ficou escrito que “a partir de agora, as mulheres são o elo mais fraco?” Desde quando é que podemos maltratar os adultos e as crianças de outras cores/origens/géneros?  Quando é que os homens passaram a achar que as mulheres são violáveis? E pior que isso, podemos fingir ajudá-las, na esperança vã que elas nos dêem atenção, e quando não dão, podemos forçá-las a isso? Quando foi que passámos, nós mulheres, a ser descartáveis?
- “Olha, vai ali uma miúda bonita, vou pôr-lhe a mão no rabo.”
 Tenho dois filhos rapazes. O que é que é suposto eu dizer-lhes quando eles puderem ouvir e ouvirem notícias semelhantes à da rapariga de 16 anos em Inglaterra? Eu, como Mãe, posso dar-lhes os melhores ensinamentos em relação a tudo, ao que é certo e ao que é errado. Posso dar-lhes as ferramentas e rezar, e esperar, e continuamente educar para que eles façam sempre o melhor com o que eu lhes dei. Mas não posso impedir que oiçam que há meninas com 4 anos a ser forçadas a casar e a serem violentadas na noite do casamento, na Índia; que há raparigas com pouco mais que 9 anos a ser forçadas à escravidão sexual em montanhas de países, como a Síria, por exemplo; que há centenas de homossexuais de ambos os géneros a serem espancados(as), violados(as), atacados(as), queimados(as) com ácido e mortos(as)...
E depois esperamos que os nossos filhos, herdeiros da próxima geração, não sejam bullies ou bullied, sejam tolerantes, amigos de todos, independentemente da sua aparência?
Quando é que passámos a tolerar no singular - não tolerando no plural - que todas estas situações se passem no Mundo que é nosso? No Mundo que partilhamos com todos os seres vivos, humanos e não só? Quando é que passámos a ser gente nojenta ao invés de ser gente decente? Desde quando é que ir à Igreja/Sinagoga/Mesquita ou até mesmo não ir a lado nenhum deve ser olhado de lado? Desde quando é que estamos certos por sermos brancos ou estamos errados por ser amarelos, azuis, cor-de-rosa ou castanhos, ou vice-versa? Porque é que o facto de eu ter maminhas deve querer dizer que uma pessoa que não conheço de lado nenhum pode julgar-me pelas minhas escolhas de vestuário? Porque é que eu não posso ser, simplesmente ser – não invadindo a liberdade dos próximos? Porque é que um homem acha que tem direito a dizer e opinar sobre o que eu tenho - ou não tenho – vestido e porque é que isso o força a tocar-me? E porque é que uma mulher há-de ter o mesmo comportamento? Desde quando é que nós, enquanto seres que partilham a mesma casa, devemos achar-nos no direito (ou dever) de nos metermos na vida dos outros? Comentamos, diariamente, o que se passa à nossa volta, desde os incêndios no nosso País, ao que diz o Sr. Presidente dos EUA (i.e. bardajonices). Em vez de comentarmos, porque não agir em conformidade, contra ou a favor? Porque havemos nós de ficar a comentar quando podemos levantar-nos e agir? Devemos nós ser inúteis e formatados trabalhadores, que permitem que haja crianças na Síria a ser gaseificadas com químicos? Quando é que passámos a deixar que se passem horrores indiscritíveis na nossa casa? Se em vez de dizermos que foi na Índia, dissermos que foi na nossa rua, (achamos que) devemos e podemos fazer qualquer coisa (e faríamos, acontecendo), mas ali na freguesia vizinha, ficamos impávidos. Deixamos que se assuma, diariamente e mundialmente, que os brancos têm mais importância, que as mulheres são mais fracas, que a religião deve ser tratada com desprezo se não fôr a que é ditada pela nossa consciência e/ou educação. Deixamos que haja sofrimento à volta de tudo o que, no fundo, devia ser a nossa casa. Nunca nos passaria pela cabeça deixar uma criança ser maltratada dentro de nossa casa, como não deixaríamos que ardesse, ou que entrassem estranhos com explosivos. Porque é que estamos nós a preocuparmo-nos cada vez menos uns com os outros e nos vemos apenas a nós? Porque não há-de ser a nossa casa um Mundo tolerante, em que ser parte de outro país, religião, género, ou origem, é pura e simplesmente, uma lufada de ar fresco no que de outra maneira seria um Mundo aborrecido, em que somos todos iguais? Não devíamos TODOS exercer tolerância e permitir que TODOS, independentemente, sejam(os) livres? Até quando vamos nós, todos igualmente pertencentes a este mundo, permitir tanto? Até quando vamos deixar que haja pessoas que se auto-denominaram reis do mundo façam o que lhes passa pela cabeça, sem dizermos nada, sem fazermos nada? Até quando vamos deixar que as gerações vindouras se comportem como as anteriores e esperar diferente?

Make it a better place, for you and for me and the entire Human race” - Michael Jackson